Depois de agradavelmente ter assistido à maciça atenção dada na imprensa através de artigos, críticas e opiniões (mais que merecida e justificada) ao espectáculo Gengis entre os Pigmeus, encenado por Pedro Marques, aqui, neste pequeno texto, de forma reaccionária, admite-se, apetece começar por lembrar e salientar que todos assistimos a uma peça escrita, em Inglaterra, em 2002. Há já 6 anos atrás! Quando ainda o discurso (a retórica) da peça, agora já algo repetido e ouvido (mas poucas vezes posto em destaque desta forma tão concentrada) ainda andava nos nossos olhos (TV), nos nossos corpos (medo) e nas nossas mentes (perplexas e maravilhadas com os «novos adventos do novo milénio»). O texto está datado, mas, ao mesmo tempo, continua actualíssimo e a encenação que nos foi apresentada é, pensando de forma generalista, de amanhã, porque não estou a ver esta encenação a ser apresentada (por uma companhia portuguesa recente, com um encenador e actores jovens) num outro sítio de Lisboa, ou deste país, sem causar surpresa. Ou algum estremecimento, como provocaria, hoje, se fosse possível apresentá-la e percorrer o país de ponta a… vá lá, pelo menos meio.
Porque nos conta uma história, em que tudo se torna uma marca registada, que todos vivemos ainda (e que de forma estúpida continuaremos a viver), a história destes «três que somos todos nós, que vivem uma vida neurótica como a nossa». Como afirma Pedro Marques no «diário de bordo» do projecto Trilogia Gengiscão, «temos de compreender estas personagens. Não as podemos julgar. Assim como não queríamos que nos julgassem na nossa vida vazia e estúpida. A solução está na acção. Para isso é preciso beber muitas chávenas de café a olhar para um qualquer arco-íris. A minha esperança é que um dia se possa trabalhar em Portugal no teatro com condições dignas para todos. Sentir que o nosso trabalho tem impacto nas pessoas. Sentir que o teatro é o local “onde a faca corta, onde a verdade dói, onde as paredes se desmoronam em cima de mentiras e hipocrisia, onde a condescendência de mentes tacanhas é afugentada para sua grande desonra, onde a degradação e o veneno da publicidade e do consumismo são rejeitados franca e abertamente, onde os pusilânimes não se atrevem a pôr o pé, onde as palavras desconfortáveis e difíceis são ditas sejam quais forem as consequências, onde a inteligência e o humor escarnecem do medo.” E não o exílio», como na cena final da peça, magistralmente conseguida, em que a amargura da solução proposta – o «sonho» de ir para a América (depois da denunciação ostensiva de todos os podres do sistema vigente) – rima com a amargura do café marca registada, e que se concebe ainda existir, apenas na medida, em que algures é dito que «a América não é um sítio, mas um estado de espírito».
Rui Teigão, Programador do Fatal (Festival Anual de Teatro Académico). In Le Monde Diplomatique, edição portuguesa.
Porque nos conta uma história, em que tudo se torna uma marca registada, que todos vivemos ainda (e que de forma estúpida continuaremos a viver), a história destes «três que somos todos nós, que vivem uma vida neurótica como a nossa». Como afirma Pedro Marques no «diário de bordo» do projecto Trilogia Gengiscão, «temos de compreender estas personagens. Não as podemos julgar. Assim como não queríamos que nos julgassem na nossa vida vazia e estúpida. A solução está na acção. Para isso é preciso beber muitas chávenas de café a olhar para um qualquer arco-íris. A minha esperança é que um dia se possa trabalhar em Portugal no teatro com condições dignas para todos. Sentir que o nosso trabalho tem impacto nas pessoas. Sentir que o teatro é o local “onde a faca corta, onde a verdade dói, onde as paredes se desmoronam em cima de mentiras e hipocrisia, onde a condescendência de mentes tacanhas é afugentada para sua grande desonra, onde a degradação e o veneno da publicidade e do consumismo são rejeitados franca e abertamente, onde os pusilânimes não se atrevem a pôr o pé, onde as palavras desconfortáveis e difíceis são ditas sejam quais forem as consequências, onde a inteligência e o humor escarnecem do medo.” E não o exílio», como na cena final da peça, magistralmente conseguida, em que a amargura da solução proposta – o «sonho» de ir para a América (depois da denunciação ostensiva de todos os podres do sistema vigente) – rima com a amargura do café marca registada, e que se concebe ainda existir, apenas na medida, em que algures é dito que «a América não é um sítio, mas um estado de espírito».
Rui Teigão, Programador do Fatal (Festival Anual de Teatro Académico). In Le Monde Diplomatique, edição portuguesa.
