O projecto Fora de Cena, a Culturgest e o Festival de Teatro de Almada apresentaram "Gengis Entre os Pigmeus" do dramaturgo britânico Gregory Motton nos dias 4, 5, 6, 8, 9 e 10 de Julho de 2008 em Lisboa na Culturgest, integrado no programa do Festival de Almada.
Com Dinarte Branco, Inês Nogueira, Pedro Marques, Teresa Sobral e Teresa Tavares. Cenários e figurinos de Luís Mouro.
Teatro Gil Vicente, em Coimbra, a 17 de Julho.

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton
Foto Pedro Polónio. Julho 2008.

9 de Julho de 2008

ROBERTO CONTRA O FIM DA HISTÓRIA

Gengis entre os Pigmeus é frequentemente comparado aos Ubus de Alfred Jarry, dado o anti-realismo das circunstâncias e a ousadia alegórica da fábula de um merceeiro que se torna 'Khan' de todos nós. Eu prefiro vê-lo como um D. Roberto para adultos emancipados. Tal como nos robertos, as personagens dizem tudo o que pensam, o tempo é aos saltos, o espaço elástico, a trama explícita. Sabemos que há um manipulador, mas preferimos não o ver, no meio da chinfrineira e dos golpes de bastão. O gozo é infantil. O assunto nem tanto. Motton autor da peça, aponta as baterias satíricas à boa vida da Europa ocidental, em particular daquela Londres metropolitana em cujo império jamais se punha o sol. O texto denuncia a relação dessa riqueza e poder de compra com a miséria de sweat shops, das fábricas prontas-a-deslocalizar e dos salários de cão das ex-colónias. Ironia ou talvez não, é num dos corações financeiros deste país, o banco público Caixa Geral de Depósitos, que Pedro Marques encena a diatribe de Motton contra o Capital 'logorreico'. Mas no pequeno auditório da Culturgest, em boa hora resgatado ao triste fim de sala de conferências, os vitupérios não atingem a couraça liberal da alta finança, e nem Gengis nem Marques farão mossa, como é óbvio. Motton diz tudo, e Marques subscreve, porque não têm nada a perder. A Culturgest é um lugar de liberdade artística porque preza o livre pensamento e, ao contrário do Estado, não pretende gerar um teatro de corte. Está tudo certo, e a revolução não começa amanhã. Também por isso, a urgência e desesperança do estilo de representação são tão nitidas, com as personagens em permanente tensão para obter algum ganho, ou alguma ajuda, não se sabe de onde, para conseguir a liberdade ou, pelo menos, esquecerem-se do mundo. As personagens congeminam estratégias tão absurdas, mas tão absurdas, que acabam por retratar com alta-fidelidade o dia-a-dia do século XXI. O confronto pontual com os espectadores, a anarquia das fronteiras entre palco e plateia, a denúncia vincadíssima de que os actores estão a jogar com aquilo que dizem e com o que acontece no momento, e não só a representar um salão ou um apartamento de outros tempos - tudo isto são coisas que fazem a cena respirar. Nem tudo são maravilhas: a tradução do texto em imagens, em movimento, em cena não-verbal, podia ser mais rica e mais abundante, que não comprometeria aquilo que se quer dizer, nem a crueza com que tem de ser dito. Mas se o teatro é um lugar do pensamento em cena, este espectáculo faz pensar sem parar, e por isso é mais do que bem-vindo.

Jorge Louraço Figueira in Folha Informativa do Festival de Almada de 2008.

3 pigmeus:

Jorge Louraço Figueira disse...

Queira gentilmente tirar o apóstrofo de «Ubu's» - até parece nome de cadeia de restaurantes fast food marca registada!

Pedro Marques disse...

Obrigado. Já corrigi.

Pedro Marques disse...
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