O projecto Fora de Cena, a Culturgest e o Festival de Teatro de Almada apresentaram "Gengis Entre os Pigmeus" do dramaturgo britânico Gregory Motton nos dias 4, 5, 6, 8, 9 e 10 de Julho de 2008 em Lisboa na Culturgest, integrado no programa do Festival de Almada.
Com Dinarte Branco, Inês Nogueira, Pedro Marques, Teresa Sobral e Teresa Tavares. Cenários e figurinos de Luís Mouro.
Teatro Gil Vicente, em Coimbra, a 17 de Julho.

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton
Foto Pedro Polónio. Julho 2008.

4 de Julho de 2008

O CAPITALISMO É UMA CORDA NA GARGANTA

Gengis entre os Pigmeus, de Gregory Motton, encenada por Pedro Marques, estreia hoje na Culturgest. É mais um destaque do Festival de Almada.

Uma cena emblemática merece destaque logo no início. Gengis, com uma t-shirt com o logotipo da Adidas a marcar o peito e umas calças de cor tão subtil que às vezes nos dá a ideia de que não as tem, masturba-se com o monitor de um computador depois de o tio lhe dizer que com aquele objecto podia viajar o mundo, conhecer pessoas e satisfazer os seus desejos sexuais.
A cena pode provocar o riso, por ser hilariante e irónica ou por nos dar o sentimento de aversão a uma sociedade que canaliza todas as suas atitudes para o computador. Gengis é o protagonista de Gengis entre os Pigmeus, peça escrita pelo dramaturgo britânico Gregory Motton e encenada por Pedro Marques - estreia hoje na Culturgest, em Lisboa, integrada no Festival Internacional de Almada. É sobre a forma como funciona a sociedade de consumo: o capitalismo que foi "prorrogado para sempre", a publicidade que mostra sonhos e simula uma vida melhor, a ganância dos empresários pelo lucro, a inevitabilidade dos impostos, a lei da oferta e procura. Como é óbvio, quem fala disso não consegue esquivar-se do "Império do Consumo", os Estados Unidos, e do seu respectivo presidente, na peça um parvo que não tem opinião e só diz asneiras, interpretado por uma personagem com uma nota de dólar à frente da cara. E que num certo momento diz: "sou um cabrão muita rico."
Gengis entre os Pigmeus é a segunda peça de uma trilogia que começa em Gato e Rato (1995) - já encenada em Portugal pela companhia portuense Visões Úteis - e termina em Férias ao Sol (2003).
O espectáculo começa com Gengis com a corda ao pescoço. A metáfora resume-se nas palavras de Pedro Marques: "O capitalismo é estar com a corda na garganta sem nunca se chegar a morrer."
Gengis, interpretado por Dinarte Branco, é manipulado pelo Tio (Teresa Sobral) e pela Titi (Inês Nogueira), que lhe dão lições sobre o capitalismo a toda a hora. Ele acaba por se render às ideias do Tio, empresário que quer vender o seu café Arco-Íris e as gravatas para todo o mundo e se vê no meio de uma guerra comercial com os EUA. É aqui que entra em cena a actriz Teresa Tavares, a representar um agente comercial americano, depois um homem oriental que se junta a Gengis na luta contra os EUA, numa clara alusão a Bin Laden, e mais tarde George W. Bush. Há detalhes que não devem ser contados mas é lícito dizer que Gengis é suficientemente ingénuo para acreditar que pode ganhar a guerra comercial e que acaba por se apaixonar por uma filipina que, afinal, é uma boneca insuflável.
Passaram-se seis anos desde que Pedro Marques leu a peça pela primeira vez. "Aquilo de que fala continua a ser verdade", por isso quer encenar também a terceira parte da trilogia. "George W. Bush ainda está no meio de nós", Bin Laden continua sem aparecer e nós "na vertigem do consumo", "temos de crescer, crescer". Não se sabe é bem para onde - talvez como bonecos insufláveis que a qualquer momento podem explodir.

Cláudia Silva, in Público, 4 de Julho.

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