Há um encenador em Portugal a dizer que o teatro tem de se libertar do estado. O seu nome é Pedro Marques. Estreou ontem na Culturgest Gengis entre os Pigmeus.
"Estamos todos mortos e ainda não nos apercebemos disso". As palavras, roubadas ao dramaturgo Edward Bond, servem a Pedro Marques, 39 anos, para descrever aquilo que o encenador vê quando olha para o meio teatral português. Depois de meia dúzia de anos de Cornucópia, outra de Artistas Unidos, e mais dois de desemprego, desespero e insatisfação, Marques volta ao teatro, com uma crítica ao capitalismo de Gregory Motton (em estreia no Festival de Almada) e um discurso que o próprio encenador reconhece polémico, mas necessário: "o teatro tem de se libertar rapidamente da corda do Estado e conquistar público. Uma das razões para o teatro ter pouca visibilidade junto das pessoas reside no facto deste se ter distanciado das pessoas, voluntariamente, e exactamente através dos subsídios".
O que está em causa não é, no seu entender, apenas o sistema económico em que vivemos - e que Gregory Motton tão bem caricatura na trilogia de que faz parte Gengis entre os Pigmeus - mas todo um sistema político e artístico. A novidade no discurso de Pedro Marques não está, porém, no facto de lamentar a inexistência de uma política para as artes, embora também a lamente. Está no dedo acusador que dirige às companhias de teatro: "As grandes companhias de teatro, que vêm dos anos 70, como a Barraca ou a Comuna, têm modos de produção obsoletos. Já não se pode fazer teatro como antigamente, ou receber subsídios para fazer três peças por ano. Se o meu orçamento anda à volta dos 20 mil euros, então como explicar que essas mesmas companhias, com nomes firmados, possam, nalguns casos, chegar a receber 300 mil a 400 mil ou mesmo 600 mil euros por ano para fazer três peças?"
O que aconteceu, afirma "foi que essas mesmas companhias - tirando alguns casos em que há um fenómeno de público (como o Festival de Almada) - não conseguiram estabelecer uma ligação à comunidade, criando um público e fixando-o", de modo a terem uma existência mais independente. O teatro, porém, não é um caso isolado no panorama nacional: "O dinheiro que veio da União Europeia, no fim dos anos 80, também não serviu para criar conhecimento e investir, mas para as pessoas comprarem jipes. Crescemos à custa do consumo, e não à base da produção de coisas. Fizeram-se auto-estradas, mas quem gera a riqueza são as pessoas. Agora dizem que os portugueses não têm conhecimentos."
Gengis entre os Pigmeus, que estreou ontem na Culturgest (fica até dia 10) discute essa necessidade de crescer consumindo, em vez de produzir. A história do homem que depois de se ter tornado um empresário de sucesso se sujeita voluntariamente a uma lobotomia, e se vê na condição de ter de sobreviver até ao fim dos dias com a corda na garganta, porque o capitalismo foi prorrogado para sempre, aparece num contexto de um projecto próprio a que chamou Fora de Cena, e que só conseguiu concretizar depois de uma instituição como a Culturgest aparecer como produtora da peça. "temos uma rede de teatros, mas falta uma visão que os preencha. Os programadores não sabem o que escolher, não conhecem os profissionais, mesmo com carreiras longas. Há sempre uma desconfiança... que desaparece quando uma instituição como a Culturgest entra em cena". O problema, explica, reside apenas no desconhecimento dos responsáveis, mas no facto de ser mais fácil co-produzir uma peça subsidiada, do que apostar em algo de raiz. Durante os dois anos em que esteve fora do teatro, Pedro Marques elaborou vários projectos para bibliotecas. Nesse processo acontecia-lhe despertar o interesse nos responsáveis, mas também receber um telefonema semanas depois a dizer: "Vamos fazer algo parecido mas com pessoas de cá". Pelo caminho ninguém se lembra que havia algo parecido com direitos de autor. Depois, há ainda a questão dos conhecimentos pessoais: "Bato-me por algo que seja democrático, que faça com que as pessoas sejam escolhidas por aquilo que valem e não pelos conhecimentos que têm".
Aos 39 anos, Pedro Marques já não é propriamente um jovem, mas quando falamos de teatro e encenação não há grandes hipóteses de encontrar gente da sua idade que esteja fora desta condição frágil e instável: "tirando as companhias dos anos 70, os outros criadores que apareceram, nos últimos anos, não foram capazes de se desenvolverem, de apresentarem trabalho de forma contínua." É por isso que em Portugal os encenadores mais novos levam muitos anos de tentativas e falhanços, não necessariamente artísticos. Tal como acontece a Pedro Marques, o esforço de todos passa pela conquista de confiança dos programadores, das instituições ou do Estado para que estes lhes permitam levar avante os seus projectos de criação. Pedro Marques não está, de facto, sozinho. É apenas mais um de um sistema, que nunca "valorizou as pessoas que trabalham ao máximo, para que a sua dinâmica traga outras pessoas válidas". Mas esse, acrescenta, "é também um problema do país", a que quer renunciar, contrariar. "Chega de atavismo!"
Cristina Margato in Expresso, 5-7-08.

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