“Queres as boas notícias ou as más notícias primeiro?” Pergunta a Titi. Gengis tem a corda à volta do pescoço. A boa notícia é que a pena capital foi abolida, a má é que o capitalismo acabou de ser prorrogado... para sempre. O capitalismo é estar com a corda na garganta sem nunca se chegar a morrer. É uma morte em suspenso.
A trilogia dedicada ao consumismo de Gregory Motton que começa em Gato e Rato (Carneiros) (1995) e termina em Férias Ao Sol (2003) e onde Gengis Entre os Pigmeus é a segunda peça (2002), é uma telenovela da neurose que nos mostra a desagregação do carácter das personagens por causa do próprio mundo que as inventa e fabrica: Gengis é manipulado pelo Tio e pela Titi, é levado a desenvolver um mundo onde as pessoas não sabem o que é o amor e se riem com a possibilidade de acrescentar justiça e liberdade ao mundo. Um mundo de faca na mão à espera do primeiro incauto ou crédulo.
Gengis aprende os fundamentos do capitalismo: a regra da oferta e da procura que só tem realmente um sentido – o da conveniência –, a razão do lucro, a inevitabilidade dos impostos e a cegueira do crescimento que levará a terra a exaurir-se ainda antes de a humanidade poder cumprir o sonho da igualdade.
A aprendizagem de Gengis e a ganância do Tio levam-nos a querer espalhar os seus produtos por todo o mundo. Seja o Sanilav ou o café Arco-Íris ou os Baraços. Por isso a guerra comercial com os E. U. A. E, com os americanos, uma guerra comercial só pode acabar em mísseis e conferências de imprensa de presidentes tacanhos. Gengis é suficientemente ingénuo para acreditar que pode ganhar.
Isso não sucede e ele decide ir para as Filipinas pesquisar a base industrial dos E.U. (a guerra convencional está perdida, resta-lhe apenas a espionagem). Acabará a trabalhar para o Tio. Aprenderá com o trabalho árduo e apaixonar-se-á pela Polegarzinho – uma trabalhadora filipina.
No final, a esperança, transporta-a ironicamente o Tio, através do seu café de marca registada, Arco-Íris.
Passaram seis anos desde que li o texto pela primeira vez. Aquilo de que fala continua a ser verdade. Talvez a urgência do discurso seja mais radical do que nessa altura, George W, Bush ainda está no meio de nós (por pouco tempo, felizmente), Bin Laden continua a ser o Sr. Prondékanda e nós na vertigem do consumo, só que a um nível mais alto, cegos do crescimento. Temos de crescer, crescer, crescer. Mas para onde?
Nas primeiras conversas com o Luís Mouro sobre o universo da peça e dos temas que levanta, falámos da desconstrução do ser humano. Dizia ele, citando Álvaro Cunhal, que quanto mais fragmentado o corpo humano for figurado, maior crise o mesmo atravessa nesse determinado momento. Depois pensámos nas justaposições e ironia de George Grosz, Max Ernst, no teatro de Odön Von Horvath e Bertolt Brecht, da mesma época, integrados num movimento artístico sem compromissos, ligado ao dadaísmo, à colagem de objectos e discursos de proveniências diversas e por vezes contraditórias. Uma arte que crê não acreditar em nada. Uma arte que faz perguntas mas não quer dar as respostas, uma arte viva e actuante.
A escrita de Gregory Motton também é assim. Cheia de ângulos e arestas, perguntas e humor. Gengis Entre Os Pigmeus está dividida em 24 pequenas cenas. Muitas seguem-se umas às outras. O tempo entre elas é indeterminado. Resta descobrir que movimento está por trás do texto. Que saltos lógicos é que as personagens dão? É um trabalho difícil, sentimos que a qualquer momento a peça se pode partir se algum significado for deixado de fora, mas recompensante, porque neste corte e colagem os ecos temáticos e imagéticos fazem ouvir-se polifonicamente, em várias dimensões, as ligações são inúmeras e interessantes.
A representação funciona a todos os níveis: sonoro, linguístico, imagético, emotivo, e eles interpenetram-se constantemente de modo aparentemente caótico e surrealista. Mas no final o significado resolve-se numa reflexão profunda sobre os valores mais fundamentais da nossa humanidade. Quantas vezes nós, nos ensaios, nos dissemos “engraçado, isto é um eco do que acontece mais tarde"; "engraçado como isto me acontece todos os dias.” Motivos que iam revelando, entre si, coisas novas e que, esperamos, dêem ao espectador um traço geral agudo e pungente da nossa sociedade. Um traço cáustico, claustrofóbico, neurótico, mas também tridimensional, contraditório e substantivo.
Foi isto que procurámos no período de ensaios: saber o quê mas não o porquê. Muitas vezes queríamos verbalizar as escolhas mas sabíamos que assim que as quiséssemos definir para sempre elas se escapariam. Fosse nas montanhas russas emocionais que o Dinarte teve de atravessar para dar corpo ao Gengis, ou nos discursos lógicos e pragmáticos do Tio da Teresa Sobral, acabando nos movimentos feéricos que a Inês Nogueira teve de dar continuidade na sua busca por esta Titi, a procura era sempre feita através do voluntarismo e não do raciocínio lógico, através da generosidade, empenho e disciplina e não do discurso já feito, pensado e mastigado anteriormente. Sentimos sempre que estávamos a pisar terreno virgem. Novo. Esta vibração do texto foi primordial para sentirmos que estávamos a fazer um trabalho válido e que, pensamos, será útil para muita gente.
Gengis termina a história a falar consigo próprio. Com um boneco. Apaixona-se por um boneco. Apaixona-se por si próprio. Gengis acaba desfeito.
Será que o Tio lhe insufla esperança com o café final? A perplexidade de Gengis é a nossa. Estaremos também nós desfeitos por termos assistido à ascensão e queda de um projecto de pessoa? Qual é a nossa posição? Teremos conseguido seguir o raciocínio doentio do lucro e dos impostos, do crescimento e da ganância? Vimos dentro deles reflectidas algumas das nossas preocupações, medos, frustrações? Teremos reconhecido nesta família neurótica alguns traços da nossa vida?
É só essas perguntas que pedimos que partilhem connosco. É pedir muito? Não sei.
Texto para o programa da Culturgest.
A trilogia dedicada ao consumismo de Gregory Motton que começa em Gato e Rato (Carneiros) (1995) e termina em Férias Ao Sol (2003) e onde Gengis Entre os Pigmeus é a segunda peça (2002), é uma telenovela da neurose que nos mostra a desagregação do carácter das personagens por causa do próprio mundo que as inventa e fabrica: Gengis é manipulado pelo Tio e pela Titi, é levado a desenvolver um mundo onde as pessoas não sabem o que é o amor e se riem com a possibilidade de acrescentar justiça e liberdade ao mundo. Um mundo de faca na mão à espera do primeiro incauto ou crédulo.
Gengis aprende os fundamentos do capitalismo: a regra da oferta e da procura que só tem realmente um sentido – o da conveniência –, a razão do lucro, a inevitabilidade dos impostos e a cegueira do crescimento que levará a terra a exaurir-se ainda antes de a humanidade poder cumprir o sonho da igualdade.
A aprendizagem de Gengis e a ganância do Tio levam-nos a querer espalhar os seus produtos por todo o mundo. Seja o Sanilav ou o café Arco-Íris ou os Baraços. Por isso a guerra comercial com os E. U. A. E, com os americanos, uma guerra comercial só pode acabar em mísseis e conferências de imprensa de presidentes tacanhos. Gengis é suficientemente ingénuo para acreditar que pode ganhar.
Isso não sucede e ele decide ir para as Filipinas pesquisar a base industrial dos E.U. (a guerra convencional está perdida, resta-lhe apenas a espionagem). Acabará a trabalhar para o Tio. Aprenderá com o trabalho árduo e apaixonar-se-á pela Polegarzinho – uma trabalhadora filipina.
No final, a esperança, transporta-a ironicamente o Tio, através do seu café de marca registada, Arco-Íris.
Passaram seis anos desde que li o texto pela primeira vez. Aquilo de que fala continua a ser verdade. Talvez a urgência do discurso seja mais radical do que nessa altura, George W, Bush ainda está no meio de nós (por pouco tempo, felizmente), Bin Laden continua a ser o Sr. Prondékanda e nós na vertigem do consumo, só que a um nível mais alto, cegos do crescimento. Temos de crescer, crescer, crescer. Mas para onde?
Nas primeiras conversas com o Luís Mouro sobre o universo da peça e dos temas que levanta, falámos da desconstrução do ser humano. Dizia ele, citando Álvaro Cunhal, que quanto mais fragmentado o corpo humano for figurado, maior crise o mesmo atravessa nesse determinado momento. Depois pensámos nas justaposições e ironia de George Grosz, Max Ernst, no teatro de Odön Von Horvath e Bertolt Brecht, da mesma época, integrados num movimento artístico sem compromissos, ligado ao dadaísmo, à colagem de objectos e discursos de proveniências diversas e por vezes contraditórias. Uma arte que crê não acreditar em nada. Uma arte que faz perguntas mas não quer dar as respostas, uma arte viva e actuante.
A escrita de Gregory Motton também é assim. Cheia de ângulos e arestas, perguntas e humor. Gengis Entre Os Pigmeus está dividida em 24 pequenas cenas. Muitas seguem-se umas às outras. O tempo entre elas é indeterminado. Resta descobrir que movimento está por trás do texto. Que saltos lógicos é que as personagens dão? É um trabalho difícil, sentimos que a qualquer momento a peça se pode partir se algum significado for deixado de fora, mas recompensante, porque neste corte e colagem os ecos temáticos e imagéticos fazem ouvir-se polifonicamente, em várias dimensões, as ligações são inúmeras e interessantes.
A representação funciona a todos os níveis: sonoro, linguístico, imagético, emotivo, e eles interpenetram-se constantemente de modo aparentemente caótico e surrealista. Mas no final o significado resolve-se numa reflexão profunda sobre os valores mais fundamentais da nossa humanidade. Quantas vezes nós, nos ensaios, nos dissemos “engraçado, isto é um eco do que acontece mais tarde"; "engraçado como isto me acontece todos os dias.” Motivos que iam revelando, entre si, coisas novas e que, esperamos, dêem ao espectador um traço geral agudo e pungente da nossa sociedade. Um traço cáustico, claustrofóbico, neurótico, mas também tridimensional, contraditório e substantivo.
Foi isto que procurámos no período de ensaios: saber o quê mas não o porquê. Muitas vezes queríamos verbalizar as escolhas mas sabíamos que assim que as quiséssemos definir para sempre elas se escapariam. Fosse nas montanhas russas emocionais que o Dinarte teve de atravessar para dar corpo ao Gengis, ou nos discursos lógicos e pragmáticos do Tio da Teresa Sobral, acabando nos movimentos feéricos que a Inês Nogueira teve de dar continuidade na sua busca por esta Titi, a procura era sempre feita através do voluntarismo e não do raciocínio lógico, através da generosidade, empenho e disciplina e não do discurso já feito, pensado e mastigado anteriormente. Sentimos sempre que estávamos a pisar terreno virgem. Novo. Esta vibração do texto foi primordial para sentirmos que estávamos a fazer um trabalho válido e que, pensamos, será útil para muita gente.
Gengis termina a história a falar consigo próprio. Com um boneco. Apaixona-se por um boneco. Apaixona-se por si próprio. Gengis acaba desfeito.
Será que o Tio lhe insufla esperança com o café final? A perplexidade de Gengis é a nossa. Estaremos também nós desfeitos por termos assistido à ascensão e queda de um projecto de pessoa? Qual é a nossa posição? Teremos conseguido seguir o raciocínio doentio do lucro e dos impostos, do crescimento e da ganância? Vimos dentro deles reflectidas algumas das nossas preocupações, medos, frustrações? Teremos reconhecido nesta família neurótica alguns traços da nossa vida?
É só essas perguntas que pedimos que partilhem connosco. É pedir muito? Não sei.
Texto para o programa da Culturgest.

0 pigmeus:
Enviar um comentário