O projecto Fora de Cena, a Culturgest e o Festival de Teatro de Almada apresentaram "Gengis Entre os Pigmeus" do dramaturgo britânico Gregory Motton nos dias 4, 5, 6, 8, 9 e 10 de Julho de 2008 em Lisboa na Culturgest, integrado no programa do Festival de Almada.
Com Dinarte Branco, Inês Nogueira, Pedro Marques, Teresa Sobral e Teresa Tavares. Cenários e figurinos de Luís Mouro.
Teatro Gil Vicente, em Coimbra, a 17 de Julho.

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton
Foto Pedro Polónio. Julho 2008.

22 de Junho de 2008

PERGUNTAS PARTILHADAS

“Queres as boas notícias ou as más notícias primeiro?” Pergunta a Titi. Gengis tem a corda à volta do pescoço. A boa notícia é que a pena capital foi abolida, a má é que o capitalismo acabou de ser prorrogado... para sempre. O capitalismo é estar com a corda na garganta sem nunca se chegar a morrer. É uma morte em suspenso.
A trilogia dedicada ao consumismo de Gregory Motton que começa em Gato e Rato (Carneiros) (1995) e termina em Férias Ao Sol (2003) e onde Gengis Entre os Pigmeus é a segunda peça (2002), é uma telenovela da neurose que nos mostra a desagregação do carácter das personagens por causa do próprio mundo que as inventa e fabrica: Gengis é manipulado pelo Tio e pela Titi, é levado a desenvolver um mundo onde as pessoas não sabem o que é o amor e se riem com a possibilidade de acrescentar justiça e liberdade ao mundo. Um mundo de faca na mão à espera do primeiro incauto ou crédulo.
Gengis aprende os fundamentos do capitalismo: a regra da oferta e da procura que só tem realmente um sentido – o da conveniência –, a razão do lucro, a inevitabilidade dos impostos e a cegueira do crescimento que levará a terra a exaurir-se ainda antes de a humanidade poder cumprir o sonho da igualdade.
A aprendizagem de Gengis e a ganância do Tio levam-nos a querer espalhar os seus produtos por todo o mundo. Seja o Sanilav ou o café Arco-Íris ou os Baraços. Por isso a guerra comercial com os E. U. A. E, com os americanos, uma guerra comercial só pode acabar em mísseis e conferências de imprensa de presidentes tacanhos. Gengis é suficientemente ingénuo para acreditar que pode ganhar.
Isso não sucede e ele decide ir para as Filipinas pesquisar a base industrial dos E.U. (a guerra convencional está perdida, resta-lhe apenas a espionagem). Acabará a trabalhar para o Tio. Aprenderá com o trabalho árduo e apaixonar-se-á pela Polegarzinho – uma trabalhadora filipina.
No final, a esperança, transporta-a ironicamente o Tio, através do seu café de marca registada, Arco-Íris.

Passaram seis anos desde que li o texto pela primeira vez. Aquilo de que fala continua a ser verdade. Talvez a urgência do discurso seja mais radical do que nessa altura, George W, Bush ainda está no meio de nós (por pouco tempo, felizmente), Bin Laden continua a ser o Sr. Prondékanda e nós na vertigem do consumo, só que a um nível mais alto, cegos do crescimento. Temos de crescer, crescer, crescer. Mas para onde?
Nas primeiras conversas com o Luís Mouro sobre o universo da peça e dos temas que levanta, falámos da desconstrução do ser humano. Dizia ele, citando Álvaro Cunhal, que quanto mais fragmentado o corpo humano for figurado, maior crise o mesmo atravessa nesse determinado momento. Depois pensámos nas justaposições e ironia de George Grosz, Max Ernst, no teatro de Odön Von Horvath e Bertolt Brecht, da mesma época, integrados num movimento artístico sem compromissos, ligado ao dadaísmo, à colagem de objectos e discursos de proveniências diversas e por vezes contraditórias. Uma arte que crê não acreditar em nada. Uma arte que faz perguntas mas não quer dar as respostas, uma arte viva e actuante.
A escrita de Gregory Motton também é assim. Cheia de ângulos e arestas, perguntas e humor. Gengis Entre Os Pigmeus está dividida em 24 pequenas cenas. Muitas seguem-se umas às outras. O tempo entre elas é indeterminado. Resta descobrir que movimento está por trás do texto. Que saltos lógicos é que as personagens dão? É um trabalho difícil, sentimos que a qualquer momento a peça se pode partir se algum significado for deixado de fora, mas recompensante, porque neste corte e colagem os ecos temáticos e imagéticos fazem ouvir-se polifonicamente, em várias dimensões, as ligações são inúmeras e interessantes.
A representação funciona a todos os níveis: sonoro, linguístico, imagético, emotivo, e eles interpenetram-se constantemente de modo aparentemente caótico e surrealista. Mas no final o significado resolve-se numa reflexão profunda sobre os valores mais fundamentais da nossa humanidade. Quantas vezes nós, nos ensaios, nos dissemos “engraçado, isto é um eco do que acontece mais tarde"; "engraçado como isto me acontece todos os dias.” Motivos que iam revelando, entre si, coisas novas e que, esperamos, dêem ao espectador um traço geral agudo e pungente da nossa sociedade. Um traço cáustico, claustrofóbico, neurótico, mas também tridimensional, contraditório e substantivo.
Foi isto que procurámos no período de ensaios: saber o quê mas não o porquê. Muitas vezes queríamos verbalizar as escolhas mas sabíamos que assim que as quiséssemos definir para sempre elas se escapariam. Fosse nas montanhas russas emocionais que o Dinarte teve de atravessar para dar corpo ao Gengis, ou nos discursos lógicos e pragmáticos do Tio da Teresa Sobral, acabando nos movimentos feéricos que a Inês Nogueira teve de dar continuidade na sua busca por esta Titi, a procura era sempre feita através do voluntarismo e não do raciocínio lógico, através da generosidade, empenho e disciplina e não do discurso já feito, pensado e mastigado anteriormente. Sentimos sempre que estávamos a pisar terreno virgem. Novo. Esta vibração do texto foi primordial para sentirmos que estávamos a fazer um trabalho válido e que, pensamos, será útil para muita gente.

Gengis termina a história a falar consigo próprio. Com um boneco. Apaixona-se por um boneco. Apaixona-se por si próprio. Gengis acaba desfeito.
Será que o Tio lhe insufla esperança com o café final? A perplexidade de Gengis é a nossa. Estaremos também nós desfeitos por termos assistido à ascensão e queda de um projecto de pessoa? Qual é a nossa posição? Teremos conseguido seguir o raciocínio doentio do lucro e dos impostos, do crescimento e da ganância? Vimos dentro deles reflectidas algumas das nossas preocupações, medos, frustrações? Teremos reconhecido nesta família neurótica alguns traços da nossa vida?
É só essas perguntas que pedimos que partilhem connosco. É pedir muito? Não sei.

Texto para o programa da Culturgest.

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