A caricatura do capitalismo a abrir o Festival de Almada
Na primeira peça de Gregory Motton (n. 1961) sobre o capitalismo, Gato e Rato (Carneiros), de 1995, a personagem central, Gengis, acabava com a corda ao pescoço depois de se ter transformado num empresário de sucesso e de se ter sujeito, voluntariamente, a uma lobotomia.
Em Gengis entre os Pigmeus, a peça que se seguiu - e a segunda de uma trilogia, que termina com Férias ao Sol -, a acção inicia-se no momento em que a primeira terminou. A tia de Gengis vem anunciar-lhe as boas e más notícias. Entre as boas está a abolição da pena de morte, e logo a possibilidade deste continuar vivo; entre as más, a de que o capitalismo foi prorrogado para sempre, o que o obrigará a "arranjar uma cadeira melhor, porque o capitalismo é estar continuamente com a corda no pescoço", explica Pedro Marques. Gengis entre os Pigmeus é também um projecto próprio do encenador, em estreia no Festival de Almada, numa co-produção com a Culturgest, dois anos depois de ter encenado Orgia, de Pier Paolo Pasolini, nos Artistas Unidos, companhia a que já não pertence.
Metáfora sobre o consumismo e uma sociedade desregrada, Gengis... tem um discurso secundário que está para além da crítica social e política, e que Pedro Marques pretende sublinhar: "O poder já não se joga a nível político, mas económico e pessoal, e esta peça fala disso. A dada altura, Gengis diz que pretende usar a autoridade que tem para anunciar a substituição do sistema vigente por um em que predomine a paz o amor e a compreensão, e o tio diz-lhe 'não faças isso, estás a aborrecer as pessoas, elas não sabem o que é o amor'". No quadro capitalista que Motton desenha , caricaturando aquilo que é a realidade publicitária, já não basta comprar produtos. É preciso sê-los: "O tio diz 'não queremos que comprem os nossos produtos, mas que os sejam, que os ejaculem, que os durmam'."
Farsa que pedro Marques situa entre o Rei Ubu, de Alfred Jarry, e A Resistível Ascensão de Arturo Ui, de Brecht, Gengis... está ainda marcada pela tentativa de uma certa ingenuidade, que o dramaturgo incute na personagem principal.
Este grande líder do capitalismo, visitado por outras figuras históricas mais recentes como Bin Laden, ou George W. Bush, fará algumas loucuras, como declarar uma guerra comercial aos Estados Unidos da América.
No fundo, Gengis (interpretado por Dinarte Branco) "carrega uma esperança de que as coisas sejam melhores, mas o mundo obriga-o a desvioar-se dessa esperança". Na peça, como na realidade, parece impor-se sempre a premissa de que é necessário crescer, crescer (mesmo quando as matérias-primas estão a desaparecer). Pedro Marques pergunta: "Mas, crescer porquê? Para onde? Para quê?"
Cristina Margato in Expresso 29 de Junho de 2008.
Em Gengis entre os Pigmeus, a peça que se seguiu - e a segunda de uma trilogia, que termina com Férias ao Sol -, a acção inicia-se no momento em que a primeira terminou. A tia de Gengis vem anunciar-lhe as boas e más notícias. Entre as boas está a abolição da pena de morte, e logo a possibilidade deste continuar vivo; entre as más, a de que o capitalismo foi prorrogado para sempre, o que o obrigará a "arranjar uma cadeira melhor, porque o capitalismo é estar continuamente com a corda no pescoço", explica Pedro Marques. Gengis entre os Pigmeus é também um projecto próprio do encenador, em estreia no Festival de Almada, numa co-produção com a Culturgest, dois anos depois de ter encenado Orgia, de Pier Paolo Pasolini, nos Artistas Unidos, companhia a que já não pertence.
Metáfora sobre o consumismo e uma sociedade desregrada, Gengis... tem um discurso secundário que está para além da crítica social e política, e que Pedro Marques pretende sublinhar: "O poder já não se joga a nível político, mas económico e pessoal, e esta peça fala disso. A dada altura, Gengis diz que pretende usar a autoridade que tem para anunciar a substituição do sistema vigente por um em que predomine a paz o amor e a compreensão, e o tio diz-lhe 'não faças isso, estás a aborrecer as pessoas, elas não sabem o que é o amor'". No quadro capitalista que Motton desenha , caricaturando aquilo que é a realidade publicitária, já não basta comprar produtos. É preciso sê-los: "O tio diz 'não queremos que comprem os nossos produtos, mas que os sejam, que os ejaculem, que os durmam'."
Farsa que pedro Marques situa entre o Rei Ubu, de Alfred Jarry, e A Resistível Ascensão de Arturo Ui, de Brecht, Gengis... está ainda marcada pela tentativa de uma certa ingenuidade, que o dramaturgo incute na personagem principal.
Este grande líder do capitalismo, visitado por outras figuras históricas mais recentes como Bin Laden, ou George W. Bush, fará algumas loucuras, como declarar uma guerra comercial aos Estados Unidos da América.
No fundo, Gengis (interpretado por Dinarte Branco) "carrega uma esperança de que as coisas sejam melhores, mas o mundo obriga-o a desvioar-se dessa esperança". Na peça, como na realidade, parece impor-se sempre a premissa de que é necessário crescer, crescer (mesmo quando as matérias-primas estão a desaparecer). Pedro Marques pergunta: "Mas, crescer porquê? Para onde? Para quê?"
Cristina Margato in Expresso 29 de Junho de 2008.

0 pigmeus:
Enviar um comentário