O projecto Fora de Cena, a Culturgest e o Festival de Teatro de Almada apresentaram "Gengis Entre os Pigmeus" do dramaturgo britânico Gregory Motton nos dias 4, 5, 6, 8, 9 e 10 de Julho de 2008 em Lisboa na Culturgest, integrado no programa do Festival de Almada.
Com Dinarte Branco, Inês Nogueira, Pedro Marques, Teresa Sobral e Teresa Tavares. Cenários e figurinos de Luís Mouro.
Teatro Gil Vicente, em Coimbra, a 17 de Julho.

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton
Foto Pedro Polónio. Julho 2008.

27 de Maio de 2008

MAGNÍFICO POTENTADO INDUSTRIAL

O que é um tirano? É aquilo que as pessoas querem fazer dele. São os outros que definem o tirano e lhe permitem fazer o que quer. Gengis é definido pelo Tio e pela Titi.
Primeiro. Saber o que é capitalismo.
Como é que se faz com que as pessoas comprem sempre mais coisas?
Depois, para que serve o lucro? Para comprar mais coisas.
A seguir, vamos vender baraços aos miúdos entre os 7 e os 12 anos. Eles que se enforquem. Felizmente que há o Natal. Para nos redimir e comprarmos mais coisas.
Vamos falar de impostos. Ok? Vamos falar de cobrar dinheiro às pessoas. Precisamos dele. Os tiranos vivem disso. Do dinheiro que podem tirar às pessoas. E daquilo que lhes possam vender para tirar mais dinheiro. Desde que se compre e venda, está tudo bem.
Como sempre a vertigem do consumismo: a última teoria do Tio é de que as pessoas não têm de comprar as coisas, elas têm de instilar em si próprias a necessidade de comprar coisas de maneira a que sejam manietadas por essa vontade, elas têm de ejacular coisas, dormir coisas, ser coisas, elas têm de viver o produto e não apenas comprá-lo. Gengis desmaia e tenta abolir a linguagem com Titi, a sua nova vontade, mas o Tio já se antecipou e convenceu-o a lançar um novo produto. Sanilav - para um amanhã mais limpo - embalagens de lavadores de tripas. E Gengis também é um produto.
Ele é o produto daqueles dois. Um ser capaz de se comover mas também de meter uma lata de detergente pelo cu acima de umas quantas pessoas só para ganhar uns cobres.
Gengis é aquilo que os tiranos foram originalmente. Chefes de cidades. Chefes de cidades-estado.
Mesmo assim, Gengis com o beneplácito do Tio consegue convocar toda a população do mundo para a Ilha de Wight, de 381 km2 de superfície, famosa pelos seus festivais de rock, para lhes fazer um anúncio a um detergente de regulação das tripas que por sua vez regulará a gente de hoje para os ritmos de hoje, Sanilav sete dias, acabaram-se as paragens de seis em seis dias - é que os lucros estão a descer, e uma maneira de combater isso é ter mais horas disponíveis de trabalho escravo.

O cenário de fundo é a Inglaterra e os seus interesses, mas Gengis é um imperador em qualquer sítio do mundo. Ele representa a vertigem, não só do poder, como é normal, mas da falsidade dos dias de hoje. Das ideias falsas em cima das quais construímos a nossa sociedade. E de como somos cegos para elas. De como condescendemos connosco próprios e com os outros por inércia e apenas por gostarmos de nos vitimizar. Por ignorância e preconceito.
Gengis chega ao ponto de inventar um pai e uma mãe fictícios para legitimar a sua nobre proveniência. Não que ela seja algo de que nos devamos orgulhar, durante a cena veremos que são violentos e fúteis e estão condenados ao egoísmo. Mas é o que eu digo, cada um com a sua.
Gengis insufla esperança na polegarzinho. O arco-íris enche o seu imaginário. Serve-se café.

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