O Pedro Leal é compositor, músico versátil, sonoplasta. Conheci-o há oito anos na Capital em circunstâncias bastante especiais. Eu tinha um disco em casa há anos e não sabia que era dele. Só depois de algumas conversas é que comecei a ligar os nomes às coisas. Foi um encontro cósmico. Desde aí que ficámos ligados. Eu juntei-me brevemente ao projecto de continuar o seu grupo Des Maisons em Portugal. Tocámos as músicas do disco que eu tinha em casa, num concerto, para nós memorável, na outra banda, num sítio de que já nem me lembro o nome. Éramos três. Eu, ele e o Marte na bateria.
Mais tarde ele iria para França onde ainda se encontra.
Curiosamente foi uma das pessoas que acompanhou muito do trabalho de montagem de uma outra peça do Gregory Motton: Ao Olhar Para Ti (Renascido) De Novo na Capital em 2000. Foi ele que nos emprestou a guitarra que o Jorge Silva usava em cena. Uma guitarra com o corpo meio serrado pintado de cores estranhas em estilo pós-punk. Era perfeita para aquela personagem.
Da França ele escreveu-me este mail que me parece bastante pertinente e vai no mesmo sentido das coisas que andamos a pensar (gostei principalmente da electro-ditadura por isso no fim há uma pequena história que consubstancia o argumento dele).
Fui ao Trilogia Gengiscão e, curiosamente, o cérebro começou a imaginar o que poderia ser a 'vestimenta sonora' da peça... Vou dizer-te parte de duas ou três coisas nas quais pensei.
Os frigoríficos (que não sei se adoptaram, finalmente) são uma imagem forte no sentido em que inconscientemente, nos levam às nossas angústias. Não sei se se diz, ou pensa: "tenho que ir trabalhar para encher o frigorífico"? O que justifica um painel enorme de atitudes.
É um pouco como a ideia primitiva que mudou, mas sobreviveu ao tempo... na sua forma moderna.
O branco imaculado dos 'incansáveis' também não é desnudado de sentido, é como um falso neutro.
Por outro lado o paralelo Homem/Frigorífico, não deixa de ter interesse: a parte central como a barriga que é preciso encher, e o que importa, o mais importante em termos de energia, o 'conduto', como dizem os africanos, no congelador/cabeça.
Em baixo a natureza.
Tudo, é claro, integrado perfeitamente na 'electro-ditadura'*.
Em relação ao modo de composição da peça, a que fazes alusão, podes obtê-lo facilmente no 'som'; Por exemplo, se misturares, como tu mencionas, o som de uma floresta com o ruído de uma fábrica, metes em evidência uma terceira dimensão que não é nem um nem o outro, mas que contem os dois. Curiosamente, tem muito a ver com o mundo onde vivemos, onde se confunde profundidade com sobreposição, riqueza com acumulação, minimalismo com pobreza, etc.
*Conto de Inverno
Era o dia do ano em que a EDF (Electricidade De França), passava em casa para verificar se o que tínhamos declarado correspondia às contas deles e ao consumo do prédio. Sabes como aqui no Inverno está muita briol, muita gente trabalha só para pagar o aquecimento (verídico!). Então existe toda uma série de 'fintas' para não se pagar tudo o que se consome.
Na conversa com o homem, para o distrair do contador, que estava 'traficado', perguntei-lhe, meio parvo, por que é que eles faziam esse tipo de controle.E o homem responde-me: 'sabe, de todas as maneiras a energia é produzida, para nós o jogo é que seja paga a maior quantidade possível...'
Aqui a 'electricidade' é quase toda atómica, não é possível parar os reactores assim à toa... Dá que pensar, n'é?
Mais tarde ele iria para França onde ainda se encontra.
Curiosamente foi uma das pessoas que acompanhou muito do trabalho de montagem de uma outra peça do Gregory Motton: Ao Olhar Para Ti (Renascido) De Novo na Capital em 2000. Foi ele que nos emprestou a guitarra que o Jorge Silva usava em cena. Uma guitarra com o corpo meio serrado pintado de cores estranhas em estilo pós-punk. Era perfeita para aquela personagem.
Da França ele escreveu-me este mail que me parece bastante pertinente e vai no mesmo sentido das coisas que andamos a pensar (gostei principalmente da electro-ditadura por isso no fim há uma pequena história que consubstancia o argumento dele).
Fui ao Trilogia Gengiscão e, curiosamente, o cérebro começou a imaginar o que poderia ser a 'vestimenta sonora' da peça... Vou dizer-te parte de duas ou três coisas nas quais pensei.
É um pouco como a ideia primitiva que mudou, mas sobreviveu ao tempo... na sua forma moderna.
O branco imaculado dos 'incansáveis' também não é desnudado de sentido, é como um falso neutro.
Por outro lado o paralelo Homem/Frigorífico, não deixa de ter interesse: a parte central como a barriga que é preciso encher, e o que importa, o mais importante em termos de energia, o 'conduto', como dizem os africanos, no congelador/cabeça.
Em baixo a natureza.
Tudo, é claro, integrado perfeitamente na 'electro-ditadura'*.
Em relação ao modo de composição da peça, a que fazes alusão, podes obtê-lo facilmente no 'som'; Por exemplo, se misturares, como tu mencionas, o som de uma floresta com o ruído de uma fábrica, metes em evidência uma terceira dimensão que não é nem um nem o outro, mas que contem os dois. Curiosamente, tem muito a ver com o mundo onde vivemos, onde se confunde profundidade com sobreposição, riqueza com acumulação, minimalismo com pobreza, etc.
*Conto de Inverno
Era o dia do ano em que a EDF (Electricidade De França), passava em casa para verificar se o que tínhamos declarado correspondia às contas deles e ao consumo do prédio. Sabes como aqui no Inverno está muita briol, muita gente trabalha só para pagar o aquecimento (verídico!). Então existe toda uma série de 'fintas' para não se pagar tudo o que se consome.
Na conversa com o homem, para o distrair do contador, que estava 'traficado', perguntei-lhe, meio parvo, por que é que eles faziam esse tipo de controle.E o homem responde-me: 'sabe, de todas as maneiras a energia é produzida, para nós o jogo é que seja paga a maior quantidade possível...'
Aqui a 'electricidade' é quase toda atómica, não é possível parar os reactores assim à toa... Dá que pensar, n'é?

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