O projecto Fora de Cena, a Culturgest e o Festival de Teatro de Almada apresentaram "Gengis Entre os Pigmeus" do dramaturgo britânico Gregory Motton nos dias 4, 5, 6, 8, 9 e 10 de Julho de 2008 em Lisboa na Culturgest, integrado no programa do Festival de Almada.
Com Dinarte Branco, Inês Nogueira, Pedro Marques, Teresa Sobral e Teresa Tavares. Cenários e figurinos de Luís Mouro.
Teatro Gil Vicente, em Coimbra, a 17 de Julho.

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton
Foto Pedro Polónio. Julho 2008.

24 de Abril de 2008

REPRESENTAÇÕES DA FIGURA HUMANA

Cenário. Na peça há dois níveis, pelo menos, de representação. O nível público que opera na ironia da crítica ao corolário do capitalismo, à vertigem do lucro, e o nível privado da desagregação do carácter das personagens que pressupõe a fragmentação da figura humana.
Ao valorizar a crise pessoal das personagens percebemos que a peça não só possui indicações de figuras humanas amputadas ou privadas da totalidade do seu corpo - a polegarzinho, a multiplicidade de figurinos híbridos da Titi, a tentativa de Gengis de se vestir de filipino - como nos são sugeridas novas fragmentações que nos levam, então, a pensar na inclusão de uma boneca insuflável, a rubber girl, a marioneta Bin Laden, a estátua (?), o manequim...
Podemos reforçar a ideia de que o cume fraudulento do capitalismo é inversamente proporcional à ideia de carácter, isto é, quanto mais fundo mergulhamos no consumismo menos sabemos de nós e menos inteiros parecemos aos outros e, eventualmente, a nós próprios.
Por isso a ideia dos frigoríficos a que nós chamámos "tronos-coisificados" e que podem ser túmulos, armazéns, casulos. Os frigoríficos, bens de consumo por excelência - "os incansáveis brancos" - símbolos do progresso do final do século passado e início deste século são transformados em tronos, objectos de poder. Ao fazermos isso queremos concatenar as várias dimensões e níveis presentes na peça.
A ideia da representação fragmentada deve estar sempre presente como se fosse o leitmotiv imagético do espectáculo. Pensamos em expositores da marca registada de cafés "Arco-Íris" do Tio com mulheres recortadas em cartão, o avental do tio com uma mulher em lingerie dá ideia de um travesti do poder. Todos estes elementos devem constituir uma visão estilhaçada do ser humano, uma desagregação pungente e dilacerante.
Dramática é a insistência para fazer desta desconstrução uma coisa normal - como as personagens o fazem. Admitir que o caminho é necessariamente para a frente independentemente dos outros e de nós próprios.
Figurinos. Temos várias ideias propostas pelo autor. A Titi surge ocasionalmente vestida como se se tratasse de uma colagem dadaísta, com elementos provenientes de origens diversas. Coisas como "A Titi aparece vestida numa mistura de bailarina havaiana com membro da Ordem Laranja" revelam que a personagem sofre de uma esquizofrenia aguda. Os fatos nem sempre são travestis de poder mas mostram sempre a ideia do imperador com pés de barro, a própria iniquidade da família real. Ao vestir uma espécie de uniforme da Gestapo dizendo que é um Fato de Judeu a Titi demonstra como a história pode ser distorcida pelos poderosos ao ponto de poder dizer o contrário.
Os figurinos de Gengis e do Tio são mais obscuros. Gengis, o rei, imperador, treinador, é um aprendiz nas mãos do Tio, mais ou menos tirano, com um pouco de super-herói nos discursos, na ingenuidade quase pueril, com um traço de sociedade contemporânea que o liga ao pensamento do público de hoje e à realidade social: os impostos, o lucro, o "crescer", a prosperidade: vêmo-lo como um híbrido, mas não como a Titi A esquizofrenia dele está assente na terra. A Titi delira com a música. Ele é mais ligado à realidade. A imagem de um miúdo de pijama e de galochas vem-nos à cabeça.
Para o Tio reservámos a ideia do executivo. Como é uma mulher (Teresa Sobral) a representar um homem, podemos ater-nos apenas à ideia de representação realista. Um executivo especial, porque inerte. Obcecado com a compra e venda de nadas, com a realização de dinheiro sem dinheiro. Capaz de crueldades mas mitigado pela necessidade de se fazer ouvir. Implacável mas frágil por causa do seu apetite por sexo é álcool.
Som. Um partitura de sons ambiente, reais, que fará contraponto com as canções da Titi. Sons de multidão (versão espelhada do público real na plateia do teatro), frigoríficos a zumbir, som das ruas de uma qualquer cidade, ou da floresta asiática das Filipinas. A palavra deve prevalecer sempre, ou quase, mas deve relacionar-se sonoramente com a textura criada. O imaginário despoletado deve ser quase realista. O abstraccionismo dos sons não deve ser enfatizado. Para isso temos as músicas da Titi.
Luz. As ideias de luz relacionam-se com a criação de nadas. A luz é um fenómeno físico visível mas que esculpe invisivelmente os corpos, dá-lhes relevo, não damos conta de que é a luz que o faz. É uma espécie de magia, uma sobrenaturalidade que se quer real. Daí a criação de caixas de luz (uma coisificação), janelas, portas, aberturas para planos novos e outras dimensões. Com ela devemos fazer viagens de Inglaterra às Filipinas e voltar.

Sobre o Projecto

A minha fotografia
contacto: pmsmarques@netcabo.pt

A CONTAR...