TRILOGIA GENGISCÃO

O projecto Fora de Cena, a Culturgest e o Festival de Teatro de Almada apresentaram "Gengis Entre os Pigmeus" do dramaturgo britânico Gregory Motton nos dias 4, 5, 6, 8, 9 e 10 de Julho de 2008 em Lisboa na Culturgest, integrado no programa do Festival de Almada.
Com Dinarte Branco, Inês Nogueira, Pedro Marques, Teresa Sobral e Teresa Tavares. Cenários e figurinos de Luís Mouro.
Teatro Gil Vicente, em Coimbra, a 17 de Julho.

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS de Gregory Motton
Foto Pedro Polónio. Julho 2008.

26 de Agosto de 2008

MARCA REGISTADA

Depois de agradavelmente ter assistido à maciça atenção dada na imprensa através de artigos, críticas e opiniões (mais que merecida e justificada) ao espectáculo Gengis entre os Pigmeus, encenado por Pedro Marques, aqui, neste pequeno texto, de forma reaccionária, admite-se, apetece começar por lembrar e salientar que todos assistimos a uma peça escrita, em Inglaterra, em 2002. Há já 6 anos atrás! Quando ainda o discurso (a retórica) da peça, agora já algo repetido e ouvido (mas poucas vezes posto em destaque desta forma tão concentrada) ainda andava nos nossos olhos (TV), nos nossos corpos (medo) e nas nossas mentes (perplexas e maravilhadas com os «novos adventos do novo milénio»). O texto está datado, mas, ao mesmo tempo, continua actualíssimo e a encenação que nos foi apresentada é, pensando de forma generalista, de amanhã, porque não estou a ver esta encenação a ser apresentada (por uma companhia portuguesa recente, com um encenador e actores jovens) num outro sítio de Lisboa, ou deste país, sem causar surpresa. Ou algum estremecimento, como provocaria, hoje, se fosse possível apresentá-la e percorrer o país de ponta a… vá lá, pelo menos meio.
Porque nos conta uma história, em que tudo se torna uma marca registada, que todos vivemos ainda (e que de forma estúpida continuaremos a viver), a história destes «três que somos todos nós, que vivem uma vida neurótica como a nossa». Como afirma Pedro Marques no «diário de bordo» do projecto Trilogia Gengiscão, «temos de compreender estas personagens. Não as podemos julgar. Assim como não queríamos que nos julgassem na nossa vida vazia e estúpida. A solução está na acção. Para isso é preciso beber muitas chávenas de café a olhar para um qualquer arco-íris. A minha esperança é que um dia se possa trabalhar em Portugal no teatro com condições dignas para todos. Sentir que o nosso trabalho tem impacto nas pessoas. Sentir que o teatro é o local “onde a faca corta, onde a verdade dói, onde as paredes se desmoronam em cima de mentiras e hipocrisia, onde a condescendência de mentes tacanhas é afugentada para sua grande desonra, onde a degradação e o veneno da publicidade e do consumismo são rejeitados franca e abertamente, onde os pusilânimes não se atrevem a pôr o pé, onde as palavras desconfortáveis e difíceis são ditas sejam quais forem as consequências, onde a inteligência e o humor escarnecem do medo.” E não o exílio», como na cena final da peça, magistralmente conseguida, em que a amargura da solução proposta – o «sonho» de ir para a América (depois da denunciação ostensiva de todos os podres do sistema vigente) – rima com a amargura do café marca registada, e que se concebe ainda existir, apenas na medida, em que algures é dito que «a América não é um sítio, mas um estado de espírito».

Rui Teigão, Programador do Fatal (Festival Anual de Teatro Académico). In Le Monde Diplomatique, edição portuguesa.

12 de Julho de 2008

CRÍTICA

A peça de Gregory Motton apresenta-se como uma sátira ao capitalismo enquanto organização económica que leva as pessoas a um tipo de existência regulada apenas pela necessidade de consumir. Essa necessidade conforma uma lógica de comportamentos e um universo moral que, na óptica de Motton - e não apenas dele -, acaba por dissolver a possibilidade de equilíbrio e de justiça na vida das sociedades humanas, Gengis é uma espécie de "remake" de Ubu, um Ubu hesitante entre a tirania e a incapacidade de controlar aqueles que, de facto, o manipulam; e os manipuladores têm, com frequência, uma cara mais humana do que Ubu ou do que a sua natureza (de manipuladores) deixaria pensar. Mas talvez isso seja também a natureza humana. O espectáculo, encenado por Pedro Marques, é marcado por um grande rigor na direcção e no trabalho dos intérpretes - Dinarte Branco, Teresa Sobral e Teresa Tavares são notáveis. Um aspecto argumentativo e algo demonstrativo percorre, contudo, o espectáculo, imprimindo-lhe um tom um pouco pesado, previsível e demasiado longo.

João Carneiro in Expresso 12 de Julho de 2008.

9 de Julho de 2008

ROBERTO CONTRA O FIM DA HISTÓRIA

Gengis entre os Pigmeus é frequentemente comparado aos Ubus de Alfred Jarry, dado o anti-realismo das circunstâncias e a ousadia alegórica da fábula de um merceeiro que se torna 'Khan' de todos nós. Eu prefiro vê-lo como um D. Roberto para adultos emancipados. Tal como nos robertos, as personagens dizem tudo o que pensam, o tempo é aos saltos, o espaço elástico, a trama explícita. Sabemos que há um manipulador, mas preferimos não o ver, no meio da chinfrineira e dos golpes de bastão. O gozo é infantil. O assunto nem tanto. Motton autor da peça, aponta as baterias satíricas à boa vida da Europa ocidental, em particular daquela Londres metropolitana em cujo império jamais se punha o sol. O texto denuncia a relação dessa riqueza e poder de compra com a miséria de sweat shops, das fábricas prontas-a-deslocalizar e dos salários de cão das ex-colónias. Ironia ou talvez não, é num dos corações financeiros deste país, o banco público Caixa Geral de Depósitos, que Pedro Marques encena a diatribe de Motton contra o Capital 'logorreico'. Mas no pequeno auditório da Culturgest, em boa hora resgatado ao triste fim de sala de conferências, os vitupérios não atingem a couraça liberal da alta finança, e nem Gengis nem Marques farão mossa, como é óbvio. Motton diz tudo, e Marques subscreve, porque não têm nada a perder. A Culturgest é um lugar de liberdade artística porque preza o livre pensamento e, ao contrário do Estado, não pretende gerar um teatro de corte. Está tudo certo, e a revolução não começa amanhã. Também por isso, a urgência e desesperança do estilo de representação são tão nitidas, com as personagens em permanente tensão para obter algum ganho, ou alguma ajuda, não se sabe de onde, para conseguir a liberdade ou, pelo menos, esquecerem-se do mundo. As personagens congeminam estratégias tão absurdas, mas tão absurdas, que acabam por retratar com alta-fidelidade o dia-a-dia do século XXI. O confronto pontual com os espectadores, a anarquia das fronteiras entre palco e plateia, a denúncia vincadíssima de que os actores estão a jogar com aquilo que dizem e com o que acontece no momento, e não só a representar um salão ou um apartamento de outros tempos - tudo isto são coisas que fazem a cena respirar. Nem tudo são maravilhas: a tradução do texto em imagens, em movimento, em cena não-verbal, podia ser mais rica e mais abundante, que não comprometeria aquilo que se quer dizer, nem a crueza com que tem de ser dito. Mas se o teatro é um lugar do pensamento em cena, este espectáculo faz pensar sem parar, e por isso é mais do que bem-vindo.

Jorge Louraço Figueira in Folha Informativa do Festival de Almada de 2008.

8 de Julho de 2008

CONSUMIR O CAPITALISMO

Segundo momento de uma trilogia dedicada ao consumismo (iniciada com Gato e Rato (Carneiros), de 1995, e concluída com Férias Ao Sol de 2003), Gengis entre os Pigmeus (de 2002) é uma verrinosa alegoria para os tempos modernos. Aqui destilam-se, num humor corrosivo, muitas das marcas registadas dos últimos anos: os totalitarismos encobertos, o namoro entre a publicidade e a política, a crescente exploração da mão-de-obra barata, a manipulação das massas, a solidão virtual, enfim, aquilo que é o dia-a-dia da civilização ocidental (ainda que o principal referente seja aqui a Inglaterra).
O texto de Motton trata da (segunda) ascensão e queda de Gengis (Dinarte Branco), um pobre merceeiro londrino que reencarna Gengis Khan. Trata-se de um Ubu doméstico, um ditador chaplinesco que descobre no capitalismo a via do poder. Com efeito, a premissa para o desvario que se sucederá é desde logo enunciada nas réplicas iniciais: "Queres as boas notícias ou as más notícias primeiro?, pergunta a Titi. A boa notícia é que a pena capital foi abolida, a má é que o capitalismo acabou de ser prorrogado... para sempre." E a partir daqui está aberto o trilho para satirizar o mundo que Motton conhecia em 2002 e para o que conhecemos hoje, estranhamente anunciado nesta distopia: ainda reconhecemos Blair, Bush, Bin Laden e companhia.
Curiosamente, Gengis surge com uma camisola de futebol, com as cores da selecção argentina, com a marca Adidas e com o número 10 nas costas. É portanto, a camisola de Maradona, um dos ícones mais polissémicos de sempre. Uma figura que também convoca a publicidade, o entusiasmo das massas, o excesso - no consumo de drogas, o contrapoder - na ligação a Cuba, e que até se tornou Deus da singular religião maradonista. Assim, criando esta particular mitologia, o feérico imaginário de Motton é (brilhantemente) traduzido por Pedro Marques e Luís Mouro (cenário e figurinos), convocando vários elementos do quotidiano (pelo palco há também dois frigoríficos, uma máquina de lavar roupa e um computador) mas sabendo revelar-lhes a dimensão simbólica que evocam (ocultam?).
Resulta isto num espectáculo de grande densidade mas que sabe manter um tom de ligeireza e humor, o que só vem agudizar o tom de comédia de ameaça que o texto contém. Há, contudo, zonas mais desequilibradas, na medida em que por vezes o espectáculo parece simplesmente não progredir (talvez isto se explique pela redundância de algumas cenas): faltaria, talvez, libertar o espectáculo do seu exigente ritmo de exposição-conclusão, para deixá-lo correr mais livremente, sobretudo a partir das cenas da guerra comercial com os EUA e à medida que a sequência narrativa se torna mais elíptica. Teresa Sobral (Tio) e Inês Nogueira (Titi) são os comparsas-assessores que vão manipulando Gengis. As actrizes compõem com rigor, estas duas figuras, reminiscentes de Didi e Gogo de Beckett ou de um Bucha e Estica. Pedro Marques e Teresa Tavares compõem as restantes figuras necessárias à epopeia de Gengis, com recortes seguros. De resto, Dinarte Branco é magistral. Sabe aliar um tom, por vezes pueril, a um certo grau de descontrolo cómico e, quando se torna necessário, a um registo brutalmente poético. (E a maneira como este actor ataca as palavras ainda haverá de ser estudada: parte as palavras e parte-nos o coração.)

Rui Pina Coelho in Público, 8 de Julho de 2008.

5 de Julho de 2008

DEPOIS DA ESTREIA



ESTE HOMEM ESTÁ FORA DE CENA? - ENTREVISTA

Há um encenador em Portugal a dizer que o teatro tem de se libertar do estado. O seu nome é Pedro Marques. Estreou ontem na Culturgest Gengis entre os Pigmeus.


"Estamos todos mortos e ainda não nos apercebemos disso". As palavras, roubadas ao dramaturgo Edward Bond, servem a Pedro Marques, 39 anos, para descrever aquilo que o encenador vê quando olha para o meio teatral português. Depois de meia dúzia de anos de Cornucópia, outra de Artistas Unidos, e mais dois de desemprego, desespero e insatisfação, Marques volta ao teatro, com uma crítica ao capitalismo de Gregory Motton (em estreia no Festival de Almada) e um discurso que o próprio encenador reconhece polémico, mas necessário: "o teatro tem de se libertar rapidamente da corda do Estado e conquistar público. Uma das razões para o teatro ter pouca visibilidade junto das pessoas reside no facto deste se ter distanciado das pessoas, voluntariamente, e exactamente através dos subsídios".
Face a este modelo que considera falido por culpa dos próprios criadores, Pedro Marques acredita que a saída é única: "É fazer com que o público queira, deseje ir ao teatro". O que não é fácil tendo em conta que "somos como peixes num lago que vai ser poluído, os peixes vão morrer e não fazemos nada para alterar isso. Não temos qualquer dinâmica".
O que está em causa não é, no seu entender, apenas o sistema económico em que vivemos - e que Gregory Motton tão bem caricatura na trilogia de que faz parte Gengis entre os Pigmeus - mas todo um sistema político e artístico. A novidade no discurso de Pedro Marques não está, porém, no facto de lamentar a inexistência de uma política para as artes, embora também a lamente. Está no dedo acusador que dirige às companhias de teatro: "As grandes companhias de teatro, que vêm dos anos 70, como a Barraca ou a Comuna, têm modos de produção obsoletos. Já não se pode fazer teatro como antigamente, ou receber subsídios para fazer três peças por ano. Se o meu orçamento anda à volta dos 20 mil euros, então como explicar que essas mesmas companhias, com nomes firmados, possam, nalguns casos, chegar a receber 300 mil a 400 mil ou mesmo 600 mil euros por ano para fazer três peças?"
O que aconteceu, afirma "foi que essas mesmas companhias - tirando alguns casos em que há um fenómeno de público (como o Festival de Almada) - não conseguiram estabelecer uma ligação à comunidade, criando um público e fixando-o", de modo a terem uma existência mais independente. O teatro, porém, não é um caso isolado no panorama nacional: "O dinheiro que veio da União Europeia, no fim dos anos 80, também não serviu para criar conhecimento e investir, mas para as pessoas comprarem jipes. Crescemos à custa do consumo, e não à base da produção de coisas. Fizeram-se auto-estradas, mas quem gera a riqueza são as pessoas. Agora dizem que os portugueses não têm conhecimentos."
Gengis entre os Pigmeus, que estreou ontem na Culturgest (fica até dia 10) discute essa necessidade de crescer consumindo, em vez de produzir. A história do homem que depois de se ter tornado um empresário de sucesso se sujeita voluntariamente a uma lobotomia, e se vê na condição de ter de sobreviver até ao fim dos dias com a corda na garganta, porque o capitalismo foi prorrogado para sempre, aparece num contexto de um projecto próprio a que chamou Fora de Cena, e que só conseguiu concretizar depois de uma instituição como a Culturgest aparecer como produtora da peça. "temos uma rede de teatros, mas falta uma visão que os preencha. Os programadores não sabem o que escolher, não conhecem os profissionais, mesmo com carreiras longas. Há sempre uma desconfiança... que desaparece quando uma instituição como a Culturgest entra em cena". O problema, explica, reside apenas no desconhecimento dos responsáveis, mas no facto de ser mais fácil co-produzir uma peça subsidiada, do que apostar em algo de raiz. Durante os dois anos em que esteve fora do teatro, Pedro Marques elaborou vários projectos para bibliotecas. Nesse processo acontecia-lhe despertar o interesse nos responsáveis, mas também receber um telefonema semanas depois a dizer: "Vamos fazer algo parecido mas com pessoas de cá". Pelo caminho ninguém se lembra que havia algo parecido com direitos de autor. Depois, há ainda a questão dos conhecimentos pessoais: "Bato-me por algo que seja democrático, que faça com que as pessoas sejam escolhidas por aquilo que valem e não pelos conhecimentos que têm".
Aos 39 anos, Pedro Marques já não é propriamente um jovem, mas quando falamos de teatro e encenação não há grandes hipóteses de encontrar gente da sua idade que esteja fora desta condição frágil e instável: "tirando as companhias dos anos 70, os outros criadores que apareceram, nos últimos anos, não foram capazes de se desenvolverem, de apresentarem trabalho de forma contínua." É por isso que em Portugal os encenadores mais novos levam muitos anos de tentativas e falhanços, não necessariamente artísticos. Tal como acontece a Pedro Marques, o esforço de todos passa pela conquista de confiança dos programadores, das instituições ou do Estado para que estes lhes permitam levar avante os seus projectos de criação. Pedro Marques não está, de facto, sozinho. É apenas mais um de um sistema, que nunca "valorizou as pessoas que trabalham ao máximo, para que a sua dinâmica traga outras pessoas válidas". Mas esse, acrescenta, "é também um problema do país", a que quer renunciar, contrariar. "Chega de atavismo!"

Cristina Margato in Expresso, 5-7-08.

4 de Julho de 2008

O CAPITALISMO É UMA CORDA NA GARGANTA

Gengis entre os Pigmeus, de Gregory Motton, encenada por Pedro Marques, estreia hoje na Culturgest. É mais um destaque do Festival de Almada.

Uma cena emblemática merece destaque logo no início. Gengis, com uma t-shirt com o logotipo da Adidas a marcar o peito e umas calças de cor tão subtil que às vezes nos dá a ideia de que não as tem, masturba-se com o monitor de um computador depois de o tio lhe dizer que com aquele objecto podia viajar o mundo, conhecer pessoas e satisfazer os seus desejos sexuais.
A cena pode provocar o riso, por ser hilariante e irónica ou por nos dar o sentimento de aversão a uma sociedade que canaliza todas as suas atitudes para o computador. Gengis é o protagonista de Gengis entre os Pigmeus, peça escrita pelo dramaturgo britânico Gregory Motton e encenada por Pedro Marques - estreia hoje na Culturgest, em Lisboa, integrada no Festival Internacional de Almada. É sobre a forma como funciona a sociedade de consumo: o capitalismo que foi "prorrogado para sempre", a publicidade que mostra sonhos e simula uma vida melhor, a ganância dos empresários pelo lucro, a inevitabilidade dos impostos, a lei da oferta e procura. Como é óbvio, quem fala disso não consegue esquivar-se do "Império do Consumo", os Estados Unidos, e do seu respectivo presidente, na peça um parvo que não tem opinião e só diz asneiras, interpretado por uma personagem com uma nota de dólar à frente da cara. E que num certo momento diz: "sou um cabrão muita rico."
Gengis entre os Pigmeus é a segunda peça de uma trilogia que começa em Gato e Rato (1995) - já encenada em Portugal pela companhia portuense Visões Úteis - e termina em Férias ao Sol (2003).
O espectáculo começa com Gengis com a corda ao pescoço. A metáfora resume-se nas palavras de Pedro Marques: "O capitalismo é estar com a corda na garganta sem nunca se chegar a morrer."
Gengis, interpretado por Dinarte Branco, é manipulado pelo Tio (Teresa Sobral) e pela Titi (Inês Nogueira), que lhe dão lições sobre o capitalismo a toda a hora. Ele acaba por se render às ideias do Tio, empresário que quer vender o seu café Arco-Íris e as gravatas para todo o mundo e se vê no meio de uma guerra comercial com os EUA. É aqui que entra em cena a actriz Teresa Tavares, a representar um agente comercial americano, depois um homem oriental que se junta a Gengis na luta contra os EUA, numa clara alusão a Bin Laden, e mais tarde George W. Bush. Há detalhes que não devem ser contados mas é lícito dizer que Gengis é suficientemente ingénuo para acreditar que pode ganhar a guerra comercial e que acaba por se apaixonar por uma filipina que, afinal, é uma boneca insuflável.
Passaram-se seis anos desde que Pedro Marques leu a peça pela primeira vez. "Aquilo de que fala continua a ser verdade", por isso quer encenar também a terceira parte da trilogia. "George W. Bush ainda está no meio de nós", Bin Laden continua sem aparecer e nós "na vertigem do consumo", "temos de crescer, crescer". Não se sabe é bem para onde - talvez como bonecos insufláveis que a qualquer momento podem explodir.

Cláudia Silva, in Público, 4 de Julho.

DIA DE ENSAIO GERAL

E pronto. Agora não há mais nada a fazer. Gengis, o Tio, a Titi e todos os outros, o Bin Laden, a Penny, a Annie, o Prestígio e a Vicky, o Maurice e até o Bush e aquela voz fora de cena que grita por socorro, já para não falar em toda a população do mundo que assiste ao anúncio Sanilav, seguirão o seu caminho, sem interferências de encenadores chatos e armados em bons. Não haverá mais interrupções inadequadas, o espectáculo não pode parar.
Amanhã será o dia em que ofereceremos ao público a história destes três que somos todos nós. A história destes três que vivem uma vida neurótica como a nossa. E é preciso termos amor por eles. E sermos cruéis. Como o Heiner Muller: "eu tenho de ser cruel para ser bom".
Temos de compreender estas personagens. Não as podemos julgar. Assim como não queríamos que nos julgassem na nossa vida vazia e estúpida. A solução está na acção. Mudança. Evolução. E para isso é preciso esperança. Para isso é preciso beber muitas chávenas de café a olhar para um qualquer arco-íris.
A minha esperança é que um dia se possa trabalhar em Portugal no teatro com condições dignas para todos. Trabalhar e saber que o nosso trabalho vai servir ao nosso povo e à cultura portuguesa. Sentir que o nosso trabalho tem impacto nas pessoas. Sentir que o teatro é o local "onde a faca corta, onde a verdade dói, onde as paredes se desmoronam em cima de mentiras e hipocrisia, onde a condescendência de mentes tacanhas é afugentada para sua grande desonra, onde a degradação e o veneno da publicidade e do consumismo são rejeitados franca e abertamente, onde os pusilânimes não se atrevem a pôr o pé, onde as palavras desconfortáveis e difíceis são ditas sejam quais forem as consequências, onde a inteligência e o humor escarnecem do medo". E não o exílio.

Fiquem com algumas fotografias. Belas. Mal consigo esperar pelas outras.

29 de Junho de 2008

COM A CORDA NA GARGANTA

A caricatura do capitalismo a abrir o Festival de Almada

Na primeira peça de Gregory Motton (n. 1961) sobre o capitalismo, Gato e Rato (Carneiros), de 1995, a personagem central, Gengis, acabava com a corda ao pescoço depois de se ter transformado num empresário de sucesso e de se ter sujeito, voluntariamente, a uma lobotomia.
Em Gengis entre os Pigmeus, a peça que se seguiu - e a segunda de uma trilogia, que termina com Férias ao Sol -, a acção inicia-se no momento em que a primeira terminou. A tia de Gengis vem anunciar-lhe as boas e más notícias. Entre as boas está a abolição da pena de morte, e logo a possibilidade deste continuar vivo; entre as más, a de que o capitalismo foi prorrogado para sempre, o que o obrigará a "arranjar uma cadeira melhor, porque o capitalismo é estar continuamente com a corda no pescoço", explica Pedro Marques. Gengis entre os Pigmeus é também um projecto próprio do encenador, em estreia no Festival de Almada, numa co-produção com a Culturgest, dois anos depois de ter encenado Orgia, de Pier Paolo Pasolini, nos Artistas Unidos, companhia a que já não pertence.
Metáfora sobre o consumismo e uma sociedade desregrada, Gengis... tem um discurso secundário que está para além da crítica social e política, e que Pedro Marques pretende sublinhar: "O poder já não se joga a nível político, mas económico e pessoal, e esta peça fala disso. A dada altura, Gengis diz que pretende usar a autoridade que tem para anunciar a substituição do sistema vigente por um em que predomine a paz o amor e a compreensão, e o tio diz-lhe 'não faças isso, estás a aborrecer as pessoas, elas não sabem o que é o amor'". No quadro capitalista que Motton desenha , caricaturando aquilo que é a realidade publicitária, já não basta comprar produtos. É preciso sê-los: "O tio diz 'não queremos que comprem os nossos produtos, mas que os sejam, que os ejaculem, que os durmam'."
Farsa que pedro Marques situa entre o Rei Ubu, de Alfred Jarry, e A Resistível Ascensão de Arturo Ui, de Brecht, Gengis... está ainda marcada pela tentativa de uma certa ingenuidade, que o dramaturgo incute na personagem principal.
Este grande líder do capitalismo, visitado por outras figuras históricas mais recentes como Bin Laden, ou George W. Bush, fará algumas loucuras, como declarar uma guerra comercial aos Estados Unidos da América.
No fundo, Gengis (interpretado por Dinarte Branco) "carrega uma esperança de que as coisas sejam melhores, mas o mundo obriga-o a desvioar-se dessa esperança". Na peça, como na realidade, parece impor-se sempre a premissa de que é necessário crescer, crescer (mesmo quando as matérias-primas estão a desaparecer). Pedro Marques pergunta: "Mas, crescer porquê? Para onde? Para quê?"

Cristina Margato in Expresso 29 de Junho de 2008.

24 de Junho de 2008

VAMOS EXPERIMENTAR

Amanhã vamos para o palco. Já lá estive hoje com o Luís Mouro a fazer a marcação dos frigoríficos. Vamos tirar as cortinas da esquerda mas deixar ficar as da direita.
De manhã montagem de luz e som, à tarde continuação, talvez, afinação no fim(?), às 18h ensaio com a inês de músicas, à noite ensaio de adaptação.
Falta-nos ainda, assim de memória, o vestido da titi que estará pronto (se calhar) na quinta-feira, o panamá e o colete do tio, a annie, a penny, o prestígio, a vicky, a polegarzinho ganhou algumas asas agora, o balão teve razão de existir, o Dinarte começou a brincar com ele... falta-nos a nota do bush e o lençol do bin laden.
Belo ensaio o de ontem. Duas horas e quinze, sempre a bombar!
Como é o final? - Acho que tens razão, Dinarte.
Temos de experimentar.

22 de Junho de 2008

PERGUNTAS PARTILHADAS

“Queres as boas notícias ou as más notícias primeiro?” Pergunta a Titi. Gengis tem a corda à volta do pescoço. A boa notícia é que a pena capital foi abolida, a má é que o capitalismo acabou de ser prorrogado... para sempre. O capitalismo é estar com a corda na garganta sem nunca se chegar a morrer. É uma morte em suspenso.
A trilogia dedicada ao consumismo de Gregory Motton que começa em Gato e Rato (Carneiros) (1995) e termina em Férias Ao Sol (2003) e onde Gengis Entre os Pigmeus é a segunda peça (2002), é uma telenovela da neurose que nos mostra a desagregação do carácter das personagens por causa do próprio mundo que as inventa e fabrica: Gengis é manipulado pelo Tio e pela Titi, é levado a desenvolver um mundo onde as pessoas não sabem o que é o amor e se riem com a possibilidade de acrescentar justiça e liberdade ao mundo. Um mundo de faca na mão à espera do primeiro incauto ou crédulo.
Gengis aprende os fundamentos do capitalismo: a regra da oferta e da procura que só tem realmente um sentido – o da conveniência –, a razão do lucro, a inevitabilidade dos impostos e a cegueira do crescimento que levará a terra a exaurir-se ainda antes de a humanidade poder cumprir o sonho da igualdade.
A aprendizagem de Gengis e a ganância do Tio levam-nos a querer espalhar os seus produtos por todo o mundo. Seja o Sanilav ou o café Arco-Íris ou os Baraços. Por isso a guerra comercial com os E. U. A. E, com os americanos, uma guerra comercial só pode acabar em mísseis e conferências de imprensa de presidentes tacanhos. Gengis é suficientemente ingénuo para acreditar que pode ganhar.
Isso não sucede e ele decide ir para as Filipinas pesquisar a base industrial dos E.U. (a guerra convencional está perdida, resta-lhe apenas a espionagem). Acabará a trabalhar para o Tio. Aprenderá com o trabalho árduo e apaixonar-se-á pela Polegarzinho – uma trabalhadora filipina.
No final, a esperança, transporta-a ironicamente o Tio, através do seu café de marca registada, Arco-Íris.

Passaram seis anos desde que li o texto pela primeira vez. Aquilo de que fala continua a ser verdade. Talvez a urgência do discurso seja mais radical do que nessa altura, George W, Bush ainda está no meio de nós (por pouco tempo, felizmente), Bin Laden continua a ser o Sr. Prondékanda e nós na vertigem do consumo, só que a um nível mais alto, cegos do crescimento. Temos de crescer, crescer, crescer. Mas para onde?
Nas primeiras conversas com o Luís Mouro sobre o universo da peça e dos temas que levanta, falámos da desconstrução do ser humano. Dizia ele, citando Álvaro Cunhal, que quanto mais fragmentado o corpo humano for figurado, maior crise o mesmo atravessa nesse determinado momento. Depois pensámos nas justaposições e ironia de George Grosz, Max Ernst, no teatro de Odön Von Horvath e Bertolt Brecht, da mesma época, integrados num movimento artístico sem compromissos, ligado ao dadaísmo, à colagem de objectos e discursos de proveniências diversas e por vezes contraditórias. Uma arte que crê não acreditar em nada. Uma arte que faz perguntas mas não quer dar as respostas, uma arte viva e actuante.
A escrita de Gregory Motton também é assim. Cheia de ângulos e arestas, perguntas e humor. Gengis Entre Os Pigmeus está dividida em 24 pequenas cenas. Muitas seguem-se umas às outras. O tempo entre elas é indeterminado. Resta descobrir que movimento está por trás do texto. Que saltos lógicos é que as personagens dão? É um trabalho difícil, sentimos que a qualquer momento a peça se pode partir se algum significado for deixado de fora, mas recompensante, porque neste corte e colagem os ecos temáticos e imagéticos fazem ouvir-se polifonicamente, em várias dimensões, as ligações são inúmeras e interessantes.
A representação funciona a todos os níveis: sonoro, linguístico, imagético, emotivo, e eles interpenetram-se constantemente de modo aparentemente caótico e surrealista. Mas no final o significado resolve-se numa reflexão profunda sobre os valores mais fundamentais da nossa humanidade. Quantas vezes nós, nos ensaios, nos dissemos “engraçado, isto é um eco do que acontece mais tarde"; "engraçado como isto me acontece todos os dias.” Motivos que iam revelando, entre si, coisas novas e que, esperamos, dêem ao espectador um traço geral agudo e pungente da nossa sociedade. Um traço cáustico, claustrofóbico, neurótico, mas também tridimensional, contraditório e substantivo.
Foi isto que procurámos no período de ensaios: saber o quê mas não o porquê. Muitas vezes queríamos verbalizar as escolhas mas sabíamos que assim que as quiséssemos definir para sempre elas se escapariam. Fosse nas montanhas russas emocionais que o Dinarte teve de atravessar para dar corpo ao Gengis, ou nos discursos lógicos e pragmáticos do Tio da Teresa Sobral, acabando nos movimentos feéricos que a Inês Nogueira teve de dar continuidade na sua busca por esta Titi, a procura era sempre feita através do voluntarismo e não do raciocínio lógico, através da generosidade, empenho e disciplina e não do discurso já feito, pensado e mastigado anteriormente. Sentimos sempre que estávamos a pisar terreno virgem. Novo. Esta vibração do texto foi primordial para sentirmos que estávamos a fazer um trabalho válido e que, pensamos, será útil para muita gente.

Gengis termina a história a falar consigo próprio. Com um boneco. Apaixona-se por um boneco. Apaixona-se por si próprio. Gengis acaba desfeito.
Será que o Tio lhe insufla esperança com o café final? A perplexidade de Gengis é a nossa. Estaremos também nós desfeitos por termos assistido à ascensão e queda de um projecto de pessoa? Qual é a nossa posição? Teremos conseguido seguir o raciocínio doentio do lucro e dos impostos, do crescimento e da ganância? Vimos dentro deles reflectidas algumas das nossas preocupações, medos, frustrações? Teremos reconhecido nesta família neurótica alguns traços da nossa vida?
É só essas perguntas que pedimos que partilhem connosco. É pedir muito? Não sei.

Texto para o programa da Culturgest.

21 de Junho de 2008

FIGURINOS

Uma coisa é certa. O espectáculo depende em grande medida dos figurinos. O texto pede isso. Estamos conscientes.
A Titi, na neurose da obsessão do "tudo na mesma", fascizóide, veste-se de ditadores, exorciza a sua falsa consciência, monta-se nas costas dos poderosos para se aproximar descarada e interesseiramente deles. Veste-se de Super-Mulher e de bailarina havaiana, orgulhosa do multiculturalismo falso, cultiva os nacionalismos da ordem laranja, gosta dos beatles e de nat king cole, veste-se e despe-se, constrói-se e reconstrói-se a cada dia que passa. Inócua e perigosa.

"O que é isso que tem vestido, Titi?" é a frase mais pronunciada por Gengis. A insanidade é tal que ele próprio adquire o tique, "Que tal o meu disfarce, Titi? Tentei disfarçar-me de filipino, que tal estou?"
- "Mal, está tudo mal."
Ela é que percebe de roupa. Ela é que sabe.
Também o Tio veste roupas muita fixes e bem desenhadas nas Filipinas. Mas nunca saberemos o que são. Serão as mesmas, será que as mesmas roupas num contexto diferente não ganham um significado diferente? Foi a Titi que também já o conquistou. A fábrica é da Titi? E o Sanilav? E o Café-Arco-íris? E os Baraços do Gengis?

Gengis acaba a falar consigo próprio. Com um boneco. Apaixona-se por um boneco. Apaixona-se por si próprio. Gengis acaba desfeito.
Será que o tio lhe insufla esperança com o café final? A perplexidade de Gengis é a nossa. Estaremos também nós desfeitos por termos assistido à ascensão e queda de um projecto de pessoa?
Conseguimos seguir o raciocínio doentio do lucro e dos impostos, do crescimento e da ganância? Vimos dentro deles reflectido algumas das nossas preocupações, medos, frustrações? Reconheceremos nesta família neurótica alguns traços da nossa vida?
É só essas perguntas que pedimos que partilhem connosco. É pedir muito? Não sei.

18 de Junho de 2008

ROBERT RAUSCHENBERG


FESTIVAL YAM




O Festival Yam tem habitualmente lugar no princípio de Agosto, no fim da época de chuvas. Dia de festa popular no Gana e na Nigéria, o Festival Yam tem o nome da comida mais comum de muitos países africanos. Os yams são as primeiras safras a serem colhidas. Os povos oferecem yams aos deuses e antepassados antes de os distribuirem pelos aldeões. É assim que agradecem aos espíritos lá do alto.

MUZZELTOF



I am becoming more and more Jewish on this trip. I think I may be turning Jewish. Idell is clearly a Jewish name.
My daughter has a Play Off Basketball game today and last night I wished her "muzzeltoff." "Muzzeltoff??" she said.
I know. I meant "break a leg."


Eric Idle

10 de Junho de 2008

CAFÉ ARCO-ÍRIS



MARCA REGISTADA

Gengis vai trabalhar nas Filipinas. Quer pesquisar a base industrial dos E. U. A.
Mas como nos E. U. A. não há fábricas tal e qual ele deve ir para a Ásia.
Para a fábrica do Tio.
Onde fazem o Sanilav e o Café Arco-Íris, e os baraços dele.
A Titi vendeu a patente ao Tio ou ela também se tornou uma mulher de "armas"?
Pela mala de viagem que traz no final ela acompanha o Tio, claro.
Gengis tornou-se uma marioneta ao serviço da ganância do Tio e oportunismo da Titi. É o sacrificado. Esfola os dedos até aos ossos. Vive entre os pigmeus. É um homem de ontem.
E volta a Inglaterra. O Tio salva-o mais uma vez. Serve-lhe a Experiência da Esperança numa chávena de Café Arco-Íris.
Gengis sonha, tem visões utópicas, o arco-íris que se projecta sobre ele é magnífico e aquece-lhe o coração.
É arte? É Filosofia? Não. É apenas uma chávena de Café Arco-Íris (marca registada).

5 de Junho de 2008

HÁ DIAS ASSIM...

Quando trabalhamos no teatro temos de estar à espera de fazer alguns ensaios bons e outros menos bons, não é novidade, isto deve acontecer com qualquer trabalho criativo. Quando são menos bons chateamo-nos, mandamos vir uns com os outros, estamos insatisfeitos e ficamos ansiosos. Quando são bons amamo-nos infinitamente e só pensamos em fazer aquele trabalho. Somos generosos e abertos, ouvimos os outros e não temos medo. Mas há uma grande diferença entre estes dois tipos de experiência. Quando são bons experimentamos aquilo a que se chama "teatro".
Vivemos aquilo que o Jon Fosse dizia que era o momento teatral: o instante fugaz em que um anjo passa pelo teatro e todos, público e actores, adquirem um entendimento profundo sobre determinada coisa. Aquele momento em que texto, entoação, som, respirações, corpos, entendimentos, significam mais que estas coisas todas juntas. Quando o teatro é qualquer coisa inominável - quando "a inteligência e o humor escarnecem do medo".
Hoje foi um dos dias bons. Podíamos ter continuado a trabalhar durante mais horas. Inesquecível a emoção do Gengis hoje, o didactismo do Tio, a fúria dionisíaca da Titi. Estamos no bom caminho!

3 de Junho de 2008

PROPOSTA DE CARTAZ


























O que acham?

28 de Maio de 2008

COMPRAR, COMPRAR, COMPRAR, POIS, POIS, POIS

Dia de compras. Fomos às compras. Enfiámo-nos na correria da cidade durante dez horas. Percorremos a rua dos fanqueiros e a rua da prata várias vezes. Fomos a Alfragide e ao não sei quê e ao não sei que mais. Comprámos roupas e principalmente calçado. É importante para a definição das personagens. Fizemos a vontade ao Tio.
Andámos às compras e mais compras, a satisfazer todos os interesses do Tio, vimos dezenas de possibilidades de roupas, várias ideias, vestimos e despimos a Teresa Sobral mentalmente várias vezes. Desculpa aí Teresa, mas teve de ser, (sempre é melhor que ter de examinar cuecas...) vimos muitas possibilidades de sapatos para a Titi, mas tudo depende do tecido que tivermos para o kimono/túnica dela.
Pensámos na grinalda e no boné de Mao Tsé-Tung. Decidimos que as coisas não são verdadeiras, e o jogo com o que ela leva vestido é multifacetado e pode disparar em muitas direcções. O que sabemos é que joga com uma espécie de brincadeira sobre a iconografia de imperadores como Mao, Estaline, Hitler, Pol Pot, a Super Mulher, George W., Bin Laden. Todos de saia de ervas e chapéu de coco na cabeça. É nesta ironia que o jogo imagético assenta. Comprámos a bata do Gengis nas Filipinas e o avental do Tio para os cafés do final. Ambas para estampar o logo.
Não conseguimos os balões nem o hélio. Vimos a barba do W.

27 de Maio de 2008

MAGNÍFICO POTENTADO INDUSTRIAL

O que é um tirano? É aquilo que as pessoas querem fazer dele. São os outros que definem o tirano e lhe permitem fazer o que quer. Gengis é definido pelo Tio e pela Titi.
Primeiro. Saber o que é capitalismo.
Como é que se faz com que as pessoas comprem sempre mais coisas?
Depois, para que serve o lucro? Para comprar mais coisas.
A seguir, vamos vender baraços aos miúdos entre os 7 e os 12 anos. Eles que se enforquem. Felizmente que há o Natal. Para nos redimir e comprarmos mais coisas.
Vamos falar de impostos. Ok? Vamos falar de cobrar dinheiro às pessoas. Precisamos dele. Os tiranos vivem disso. Do dinheiro que podem tirar às pessoas. E daquilo que lhes possam vender para tirar mais dinheiro. Desde que se compre e venda, está tudo bem.
Como sempre a vertigem do consumismo: a última teoria do Tio é de que as pessoas não têm de comprar as coisas, elas têm de instilar em si próprias a necessidade de comprar coisas de maneira a que sejam manietadas por essa vontade, elas têm de ejacular coisas, dormir coisas, ser coisas, elas têm de viver o produto e não apenas comprá-lo. Gengis desmaia e tenta abolir a linguagem com Titi, a sua nova vontade, mas o Tio já se antecipou e convenceu-o a lançar um novo produto. Sanilav - para um amanhã mais limpo - embalagens de lavadores de tripas. E Gengis também é um produto.
Ele é o produto daqueles dois. Um ser capaz de se comover mas também de meter uma lata de detergente pelo cu acima de umas quantas pessoas só para ganhar uns cobres.
Gengis é aquilo que os tiranos foram originalmente. Chefes de cidades. Chefes de cidades-estado.
Mesmo assim, Gengis com o beneplácito do Tio consegue convocar toda a população do mundo para a Ilha de Wight, de 381 km2 de superfície, famosa pelos seus festivais de rock, para lhes fazer um anúncio a um detergente de regulação das tripas que por sua vez regulará a gente de hoje para os ritmos de hoje, Sanilav sete dias, acabaram-se as paragens de seis em seis dias - é que os lucros estão a descer, e uma maneira de combater isso é ter mais horas disponíveis de trabalho escravo.

O cenário de fundo é a Inglaterra e os seus interesses, mas Gengis é um imperador em qualquer sítio do mundo. Ele representa a vertigem, não só do poder, como é normal, mas da falsidade dos dias de hoje. Das ideias falsas em cima das quais construímos a nossa sociedade. E de como somos cegos para elas. De como condescendemos connosco próprios e com os outros por inércia e apenas por gostarmos de nos vitimizar. Por ignorância e preconceito.
Gengis chega ao ponto de inventar um pai e uma mãe fictícios para legitimar a sua nobre proveniência. Não que ela seja algo de que nos devamos orgulhar, durante a cena veremos que são violentos e fúteis e estão condenados ao egoísmo. Mas é o que eu digo, cada um com a sua.
Gengis insufla esperança na polegarzinho. O arco-íris enche o seu imaginário. Serve-se café.

23 de Maio de 2008

RAZMATAZ - CHINFRIM

"O que nós precisamos é de um pequeno subterfúgio." O quê? Sim, um razmataz. Mas isso o que quer dizer? Quer dizer show off. O que nós precisamos é um bocado de show off. De pozinhos de perlimpimpim. Alarido. Bruá. Banzé. Chinfrim. Chinfrim? Não é mau.

Titi - O que nós precisamos é de um bocado de chinfrim.
Gengis - Está bem. Mande entrar os americanos.

Pode ser assim?
Não.
Põe Estratafúgio!
Ok.

21 de Maio de 2008

MERCENÁRIOS DE GRAVATA



Atribui-se a Luís XIV, o surgimento da gravata na corte. A história diz que, observando os uniformes dos soldados croatas (mercenários), o Rei absolutista dos finais do séc XVII se encantou com o efeito de um pedaço de cambraia branca à volta da gola. Tal acessório era usado como distintivo militar pelos croatas (mercenários). O vaidoso monarca francês ordenou que seu alfaite particular confeccionasse um pedaço fino de pano branco à gola dos uniformes.
Mais tarde, em pleno século XXI, seria uma peça de vestuário que também teria a ver com os mercenários...

Fonte: Wikipédia. (Convenientemente transformado por mim...)
Obrigado ao Pedro Leal outra vez por me ter revelado esta informação que, mais uma vez, vem muito a propósito.

MANIFESTO DADA

"Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas, ao mesmo tempo, num único e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor, e não me vou explicar, detesto o senso comum."

Tristan Tzara

POR FALAR EM BARAÇOS...

20 de Maio de 2008

ELECTRO-DITADURA

O Pedro Leal é compositor, músico versátil, sonoplasta. Conheci-o há oito anos na Capital em circunstâncias bastante especiais. Eu tinha um disco em casa há anos e não sabia que era dele. Só depois de algumas conversas é que comecei a ligar os nomes às coisas. Foi um encontro cósmico. Desde aí que ficámos ligados. Eu juntei-me brevemente ao projecto de continuar o seu grupo Des Maisons em Portugal. Tocámos as músicas do disco que eu tinha em casa, num concerto, para nós memorável, na outra banda, num sítio de que já nem me lembro o nome. Éramos três. Eu, ele e o Marte na bateria.
Mais tarde ele iria para França onde ainda se encontra.
Curiosamente foi uma das pessoas que acompanhou muito do trabalho de montagem de uma outra peça do Gregory Motton: Ao Olhar Para Ti (Renascido) De Novo na Capital em 2000. Foi ele que nos emprestou a guitarra que o Jorge Silva usava em cena. Uma guitarra com o corpo meio serrado pintado de cores estranhas em estilo pós-punk. Era perfeita para aquela personagem.
Da França ele escreveu-me este mail que me parece bastante pertinente e vai no mesmo sentido das coisas que andamos a pensar (gostei principalmente da electro-ditadura por isso no fim há uma pequena história que consubstancia o argumento dele).



Fui ao Trilogia Gengiscão e, curiosamente, o cérebro começou a imaginar o que poderia ser a 'vestimenta sonora' da peça... Vou dizer-te parte de duas ou três coisas nas quais pensei.
Os frigoríficos (que não sei se adoptaram, finalmente) são uma imagem forte no sentido em que inconscientemente, nos levam às nossas angústias. Não sei se se diz, ou pensa: "tenho que ir trabalhar para encher o frigorífico"? O que justifica um painel enorme de atitudes.
É um pouco como a ideia primitiva que mudou, mas sobreviveu ao tempo... na sua forma moderna.
O branco imaculado dos 'incansáveis' também não é desnudado de sentido, é como um falso neutro.
Por outro lado o paralelo Homem/Frigorífico, não deixa de ter interesse: a parte central como a barriga que é preciso encher, e o que importa, o mais importante em termos de energia, o 'conduto', como dizem os africanos, no congelador/cabeça.
Em baixo a natureza.
Tudo, é claro, integrado perfeitamente na 'electro-ditadura'*.
Em relação ao modo de composição da peça, a que fazes alusão, podes obtê-lo facilmente no 'som'; Por exemplo, se misturares, como tu mencionas, o som de uma floresta com o ruído de uma fábrica, metes em evidência uma terceira dimensão que não é nem um nem o outro, mas que contem os dois. Curiosamente, tem muito a ver com o mundo onde vivemos, onde se confunde profundidade com sobreposição, riqueza com acumulação, minimalismo com pobreza, etc.

*Conto de Inverno
Era o dia do ano em que a EDF (Electricidade De França), passava em casa para verificar se o que tínhamos declarado correspondia às contas deles e ao consumo do prédio. Sabes como aqui no Inverno está muita briol, muita gente trabalha só para pagar o aquecimento (verídico!). Então existe toda uma série de 'fintas' para não se pagar tudo o que se consome.
Na conversa com o homem, para o distrair do contador, que estava 'traficado', perguntei-lhe, meio parvo, por que é que eles faziam esse tipo de controle.E o homem responde-me: 'sabe, de todas as maneiras a energia é produzida, para nós o jogo é que seja paga a maior quantidade possível...'
Aqui a 'electricidade' é quase toda atómica, não é possível parar os reactores assim à toa... Dá que pensar, n'é?

CRESCER, CRESCER, CRESCER

Gengis abre a peça com a corda ao pescoço. Que corda? Uma gravata?
O que é que o levou lá?
A pena capital.
O que é que o pode tirar de lá: o Capitalismo.
Serão boas notícias?
O capitalismo é estar sempre com a corda na garganta mas nunca chegar a morrer porque a pena de morte foi abolida.
É uma condição que nos permite fazer discursos e dizer o que se quiser, quando se quiser e onde se quiser.
No teatro? Não. No restaurante.
O capitalismo é procurar sempre novas formas da mesma coisa: crescer, crescer, crescer. Pois, pois, pois. Não podemos permitir que a economia encolha.
O lucro é essencial, para podermos comprar sempre cada vez mais nadas, para podermos pagar cada vez mais impostos, para podermos construir cada vez mais hospitais e comprar cada vez mais gatinhos cor-de-rosa fofinhos.

JUBLEAUBLE

"O primeiro passo é libertar a linguagem das garras do inimigo. Vamos abolir o jargão." Digam: Vamos abolir todas aquelas coisas que não nos permitem entender os conceitos e significados das coisas até ao fim. Vamos abolir os eufemismos, os obernismos (que vão sempre em direcção a qualquer coisa e nunca são essa coisa), vamos abolir as mentiras e lérias e as linhas, lóbulos, lombas, vamos aboli-los. Qual é a dificuldade?
Parece que é difícil abolir as mentiras. Parece que a Titi sufoca quando as tentamos suprimir, parece que a Titi tem de desenvolver as suas capacidades auditivas. Afinal tratava-se apenas de "dizer" e não de "compreender".
Libertemos a linguagem das suas presas castradoras. Soltemos a nossa língua e digamos aquilo que precisa de ser dito no teatro. E não aquilo que as pessoas querem que nós digamos. Não podemos baixar o nível da representação e significado dos conceitos e das coisas. Isso seria fazer o que a televisão faz. Isso seria fazer o que as revistas cor-de-rosa fazem. Isso seria reduzir o texto ao nível intelectual da Titi quando lê a TV 7 dias.
Já agora. Calão é: "slang".

17 de Maio de 2008

MARADONA - O ANTI-CAPITALISTA BILIONÁRIO

Grandes debates filosóficos sobre aquilo que se quer. Quem são estas personagens? O que é que elas querem na peça? Que viagem fazem? Que caminhos contraditórios e difíceis trilham?
Voltemos ao início, vamos ler a peça, vamos perceber todos os pormenores até ao seu mais ínfimo detalhe. Vamos escalpelizá-la. Despi-la até ficarem só os ossos. Decidir que força está por trás destes três.
Sentemo-nos à volta de uma mesa e decidamos todos. Não podemos partir do princípio de que todos percebemos isto da mesma maneira, ainda que possa parecer à primeira vista.
Não podemos perguntar é porquê. Por que é que ele faz isto? Não interessa. Só precisamos de saber o quê.
Mas sempre? Não se pode generalizar.
Não combines tudo mas também não deixes de combinar tudo até ao mais ínfimo detalhe. Deixa o corpo decidir. E não a cabeça.

A imagem de um homem com a cabeça na forca mas que nunca chega a ser enforcado porque a pena capital foi abolida - é o nosso capitalismo. E o arco que ele traça, ou o arco-íris, é o Gengis a trabalhar para o Tio na sua fábrica de café Arco-Íris nas Filipinas.
Gengis quer atenção, quer ser ouvido. O Tio quer fazer-se ouvir, ele sabe tudo, quer ensinar o Gengis, e não toma o poder porque isso seria uma grande carga de trabalhos. A Titi assiste o Tio, mas não se importa. Tanto vai como vem. Tanto tem ideias como as dispensa. E fica chateada quando o Gengis vai para as Filipinas e se apaixona pela Polegarzinho. Ciumenta.
Maurice é o administrador do banco central da América. É o tipo dos negócios. Obscuros. É a face limpa do bilionário que se junta à luta contra o capitalismo - o Bin Laden? Ou o Maradona?

INSPIRAÇÃO PRÓ MAURICE



14 de Maio de 2008

ESPERANÇA AMARGA COMO O CAFÉ

Gengis é um miúdo que se esqueceu de crescer. Vive só. A mulher deixou-o porque odiava a vida que ele levava. A ganância fomentada pelo dinheiro comeu-o por dentro. Ele vive a solidão dos poderosos. A solidão daqueles que excluem os outros à força da sua vã glória. À força de acreditar tanto naquilo que planearam para ele, deixou de saber o que queria para a sua vida.
O Tio e a Titi acentuam tragicamente a sua vertigem. Eles constroem um mundo protegido do exterior, onde as vozes e os ecos são apenas rastos do passado, onde as pessoas reais deixaram de existir. Só há súbditos, objectos ou inimigos.
Gengis vive obcecado por uma utopia, por um desejo de fazer bem, mas a telenovela da neurose instala-se a cada oportunidade absurda. O que é preciso é fazer lucro e criar impostos e comprar, comprar, comprar. E esperar pelo Natal - a época de Brandura e Ganância; o Festival do Bode Expiatório Divino.
Quando o teatro explode no final da peça e ficamos a beber a nossa chávena de café Arco-Íris, a esperança que levamos para casa é amarga como a vida que vivemos. E podia ser de outra maneira?

11 de Maio de 2008

O GENGIS (DINARTE BRANCO)



A TITI (INÊS NOGUEIRA)



O TIO (TERESA SOBRAL)



A 11 DE MAIO

Conseguimos levantar a peça toda.
Hoje fizemos um ensaio seguido de uma hora das primeiras cenas e já tivemos um pequeno vislumbre do tom geral de representação. Divertimo-nos e isso, acho, é essencial. Desde que não nos desviemos do que é fundamental. Continuamos com problemas para imaginar os figurinos e as diferentes características que devem ter.
Na sexta-feira o Pedro fez fotografias que agora podemos aqui reproduzir. Espero que gostem.
Na foto: Inês Nogueira (Titi); Dinarte Branco (Gengis); Pedro Marques (Anny) e Teresa Sobral (Tio).

5 de Maio de 2008

A PRIMEIRA SEMANA

Começámos os ensaios. No primeiro dia lemos a peça à mesa pela última vez. Corrigimos a tradução, que está ainda a sofrer alterações, e falámos mais um bocado das temáticas levantadas pelo texto.
No segundo dia levantámos as quatro primeiras cenas. Os frigoríficos provaram ser logo uma grande ajuda e um elemento cenográfico forte. Eles são sofá, trono, escritório, tumba, armazém, fábrica das filipinas... quanto mais trabalhamos na peça mais ideias temos. É espantosa a quantidade de imagens que o texto despoleta, o imaginário que convoca é delirante. E quando confrontado com a temática do texto - o consumismo e a desagregação do carácter - as imagens, as propostas cénicas, ganham uma dimensão dramática fortíssima.
Nos figurinos continuamos muito indecisos. É a parte mais complicada de resolver neste espectáculo. Porque os híbridos devem ser muito bem equilibrados e não podem ser qualquer coisa, só para dizer que é uma colagem. Têm de servir na dose certa.
Mas o maior delírio foi quando começámos a pensar como havíamos de representar a polegarzinho. Pensámos em bonecas, bonecos insufláveis iguais àqueles que se levam para o banho e parámos nos balões. Com hélio. Foi hilariante pensar que podíamos ter a polegarzinho a flutuar ao lado da cabeça do Gengis, a falar com ele através de uns guizos que ficariam pendurados por baixo e que soariam sempre que o Dinarte puxasse o cordel. Estamos no processo de fixar esta ideia. Que balões? Com que forma? O Dinarte também respira hélio para ficar a falar com aquela voz fininha característica?
No últimos dias trabalhámos principalmente as cenas que estiveram sempre menos claras para nós nas leituras. A parte em que o Gengis decide ir espiar a base industrial dos E.U.A. nas Filipinas. Os resultados foram surpreendentes. Pelo menos para eles. Porque para mim, o Gregory Motton é como um velho conhecido. Ao trabalhar um texto dele, sei sempre, que por muito obscuro que ele possa parecer ao princípio, a recompensa virá no processo de trabalho, ao escavarmos o texto à procura de mais significados. Porque tenho a certeza que o escritor fez o seu trabalho e não deixou nada ao acaso.
Outra ideia tem a ver com a fábrica das filipinas a trabalhar. Estamos a pensar incluir mais trabalhadores na fábrica, mas ainda não temos a certeza. Tenho é a impressão que essa ideia ainda terá desenvolvimentos maiores, parece-me... não é Teresa...?

28 de Abril de 2008

FALTAM DOIS DIAS

Assinámos o contrato com a Culturgest hoje.
A partir de agora não há volta a dar. É sempre para a frente.
Estamos a ficar ligeiramente ansiosos.
Amanhã carregamos frigoríficos para a sala de ensaio.
Quarta-feira é o primeiro ensaio, estamos lá!
Muita merda!

24 de Abril de 2008

REPRESENTAÇÕES DA FIGURA HUMANA

Cenário. Na peça há dois níveis, pelo menos, de representação. O nível público que opera na ironia da crítica ao corolário do capitalismo, à vertigem do lucro, e o nível privado da desagregação do carácter das personagens que pressupõe a fragmentação da figura humana.
Ao valorizar a crise pessoal das personagens percebemos que a peça não só possui indicações de figuras humanas amputadas ou privadas da totalidade do seu corpo - a polegarzinho, a multiplicidade de figurinos híbridos da Titi, a tentativa de Gengis de se vestir de filipino - como nos são sugeridas novas fragmentações que nos levam, então, a pensar na inclusão de uma boneca insuflável, a rubber girl, a marioneta Bin Laden, a estátua (?), o manequim...
Podemos reforçar a ideia de que o cume fraudulento do capitalismo é inversamente proporcional à ideia de carácter, isto é, quanto mais fundo mergulhamos no consumismo menos sabemos de nós e menos inteiros parecemos aos outros e, eventualmente, a nós próprios.
Por isso a ideia dos frigoríficos a que nós chamámos "tronos-coisificados" e que podem ser túmulos, armazéns, casulos. Os frigoríficos, bens de consumo por excelência - "os incansáveis brancos" - símbolos do progresso do final do século passado e início deste século são transformados em tronos, objectos de poder. Ao fazermos isso queremos concatenar as várias dimensões e níveis presentes na peça.
A ideia da representação fragmentada deve estar sempre presente como se fosse o leitmotiv imagético do espectáculo. Pensamos em expositores da marca registada de cafés "Arco-Íris" do Tio com mulheres recortadas em cartão, o avental do tio com uma mulher em lingerie dá ideia de um travesti do poder. Todos estes elementos devem constituir uma visão estilhaçada do ser humano, uma desagregação pungente e dilacerante.
Dramática é a insistência para fazer desta desconstrução uma coisa normal - como as personagens o fazem. Admitir que o caminho é necessariamente para a frente independentemente dos outros e de nós próprios.
Figurinos. Temos várias ideias propostas pelo autor. A Titi surge ocasionalmente vestida como se se tratasse de uma colagem dadaísta, com elementos provenientes de origens diversas. Coisas como "A Titi aparece vestida numa mistura de bailarina havaiana com membro da Ordem Laranja" revelam que a personagem sofre de uma esquizofrenia aguda. Os fatos nem sempre são travestis de poder mas mostram sempre a ideia do imperador com pés de barro, a própria iniquidade da família real. Ao vestir uma espécie de uniforme da Gestapo dizendo que é um Fato de Judeu a Titi demonstra como a história pode ser distorcida pelos poderosos ao ponto de poder dizer o contrário.
Os figurinos de Gengis e do Tio são mais obscuros. Gengis, o rei, imperador, treinador, é um aprendiz nas mãos do Tio, mais ou menos tirano, com um pouco de super-herói nos discursos, na ingenuidade quase pueril, com um traço de sociedade contemporânea que o liga ao pensamento do público de hoje e à realidade social: os impostos, o lucro, o "crescer", a prosperidade: vêmo-lo como um híbrido, mas não como a Titi A esquizofrenia dele está assente na terra. A Titi delira com a música. Ele é mais ligado à realidade. A imagem de um miúdo de pijama e de galochas vem-nos à cabeça.
Para o Tio reservámos a ideia do executivo. Como é uma mulher (Teresa Sobral) a representar um homem, podemos ater-nos apenas à ideia de representação realista. Um executivo especial, porque inerte. Obcecado com a compra e venda de nadas, com a realização de dinheiro sem dinheiro. Capaz de crueldades mas mitigado pela necessidade de se fazer ouvir. Implacável mas frágil por causa do seu apetite por sexo é álcool.
Som. Um partitura de sons ambiente, reais, que fará contraponto com as canções da Titi. Sons de multidão (versão espelhada do público real na plateia do teatro), frigoríficos a zumbir, som das ruas de uma qualquer cidade, ou da floresta asiática das Filipinas. A palavra deve prevalecer sempre, ou quase, mas deve relacionar-se sonoramente com a textura criada. O imaginário despoletado deve ser quase realista. O abstraccionismo dos sons não deve ser enfatizado. Para isso temos as músicas da Titi.
Luz. As ideias de luz relacionam-se com a criação de nadas. A luz é um fenómeno físico visível mas que esculpe invisivelmente os corpos, dá-lhes relevo, não damos conta de que é a luz que o faz. É uma espécie de magia, uma sobrenaturalidade que se quer real. Daí a criação de caixas de luz (uma coisificação), janelas, portas, aberturas para planos novos e outras dimensões. Com ela devemos fazer viagens de Inglaterra às Filipinas e voltar.

19 de Abril de 2008

FALTAM DEZ DIAS

Faltam dez dias para começarmos os ensaios. Alguns actores já têm cenas decoradas, continuamos a encontrar-nos periodicamente para trabalhar. Estamos na fase da ansiedade. Só queremos começar a ensaiar.

1 de Abril de 2008

ENCONTROS

Estamos a encontrar-nos duas vezes por semana. Eu a Teresa S. e o Dinarte. Lemos várias vezes as cenas, tentando decorar o texto. Quando não percebemos a intenção, paramos para a discutir, para a clarificar. Contamos histórias da nossa vida que demonstrem a vertigem da peça. Às vezes as histórias reais fazem mais luz sobre as coisas que a própria racionalidade.

20 de Março de 2008

OS DOIS PRIMEIROS ENSAIOS



No sábado o João Didelet disse-me que ia ser operado a uma pedra na vesícula em Maio. Isso obrigaria a uma paragem de duas três semanas para convalescença. Era impossível contarmos com ele. Decidimos que seria melhor pensarmos noutra pessoa. Eu pensei em homens primeiro, mas depois detive-me na Teresa Sobral. Pareceu-me perfeita. Telefonei-lhe logo e ela aceitou. Pode parecer estranho mas o facto de ter mudado de um homem para uma mulher fez-me sentido. O texto pede isso. Essa indiferença de géneros. A personagem não muda de género, mas o actor pode mudar. Afinal estamos no teatro. Isto abriu a dramaturgia de um modo bastante interessante.
Fizemos dois ensaios e uma nova distribuição, ontem à tarde e hoje de manhã, no pequeno auditório da Culturgest. Ontem lemos o texto, brainstormeámos um bocado sobre figurinos e cenário. Temos frigoríficos ou não? De onde é que vêm estas personagens? Percebemos que o texto é tortuoso e enigmático, que vamos ter de escavar bastante para o perceber completamente e o passar às pessoas.
As ideias de vertigem e neurose, estão sempre presentes, assim como o surrealismo.
Aquecemos, imaginámos um castelo/forte/bloco-de-escritórios-grande-como-a-merda e a seguir improvisámos toda a peça, com a imaginação que tínhamos fabricado. Tentámos contar a história pelas nossas palavras e silêncios, tensões e harmonias. Jogámos com isso, puxámos tudo até um extremo ridículo, soube-nos bem mas podíamos radicalizá-lo mais.
Depois pegámos mesmo no texto do Motton. As coisas ficaram logo mais claras. A primeira cena é de uma natureza e a segunda é de outra, identificámos a diferença de tom. As ideias que íamos tendo adaptavam-se ao texto e o texto jogava ao gato e rato com as nossas ideias. Foi uma primeira abordagem. Deu luta.

10 de Março de 2008

CADÁVER ESQUISITO









13 de Fevereiro de 2008

ANTECIPANDO A REUNIÃO DE DOMINGO

O tio excitado nas suas escapadelas.

No cenário:
a ideia de ter 15 frigoríficos paira sempre. Máquinas de lavar? Os duráveis brancos.
Fazer amor com um computador. Como é? Sempre que o amor me quiser, basta fazer um sinal.
O eco do pilar do palco.
Um homem enforcado na sua própria gravata(?)
E a titi que bebe café impávida. Como está vestida?
O tio anda lá fora, obcecado pela esperança - uma espécie de neurose.
E os carrinhos de compras de supermercado. Cheios de manequins desfeitos.
O pilar preto e os frigoríficos brancos de todas as cores.
O palco da titi lá atrás iluminado com pares. Pode haver uma girlanda de árvore de natal. Ela e o karaoke de pacotilha. Pindérico. Caseiro. Universal.
A escultura gigante de uma árvore de shamrock. O totem do tio feito bibelô. O totem teso do tio - bem entendido.
Para além disto as paredes pretas. Sem espelhos. Negras.
Imagino um ténue véu por cima dos electrodomésticos.
Que pode vir a separar um outro mundo, à frente, e ser as filipinas.
(A polegarzinho é com o gengis)
O Prestígio da Alma e a Vicky do Emagrecimento vêm da plateia montados num carrinho de supermercado. O Prestígio leva as chaves da máquina na mão. Uau. A Vicky com uma saia excitante. Epá!
Gosto da ideia do café no final vir de trás do pilar como dizia a teresa. É uma boa surpresa.
Não esquecer o logotipo do café arco-íris no pilar.

9 de Fevereiro de 2008

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS #2

Gengis abre a peça de gravata ao pescoço. Pendurado como se enforcado. Mas é ilusão. A Titi bebe café, junto a ele. O Tio anda a angariar votos. (Na foto, o cão da Titi numa comemoração do dia de São Patrício...)

GENGIS
: Pois, não acho que tenha passado as minhas ideias como deve ser, está a perceber.
TITI: Oh não!
GENGIS: Ah sim! Não consegui dizer aquilo que queria... claramente. Desta vez, ameaçá-los-ei com subtileza até implorarem clareza e atormentá-los-ei com clareza até exigirem subtileza. Vou concordar com todos e todos concordarão comigo. Serei rico e a Titi será minha porta-voz. Promoções para todos. Hurrah!
TITI: Hurrah! Que grande promoção!
GENGIS: (observa o TIO que está, hesitante, à porta) Tio, o que é que anda aí a fazer de um lado para o outro à porta. Venha já para aqui! Não há tempo para nos sentirmos rejeitados. Estamos abertos a tudo. Vamos começar tudo de novo.
TIO: Isso é música para os meus ouvidos surdos, uma visão para os meus olhos em chaga, uma nuvem que sai do meu eclipse, uma urtiga removida do meu chinelo, petróleo tirado do meu petroleiro inchado, todos, avé à Senhora Jesus!
GENGIS: Está bêbado, Tio.
TIO: Estive a comemorar o teu regresso ao poder. Que emoção. Meu Deus, como se aqueceram no teu quente sorriso de calor as pessoas; tenham cuidado, é um homem de contrastes; Tanto está quente como húmido...
GENGIS: Tenho um anúncio a fazer; sabia que o Napoleão disse que a Inglaterra era uma nação de ladrões de lojas (sic) –
TITI: Disse? Que lata!
GENGIS: Bom, vou acabar com esse estigma de uma vez por todas; vamos ser uma nação de lambões de lojas.
TITI: Queres dizer –
GENGIS: Sim, vamos modernizar a loja.
TIO e TITI: Modernizar a loja?
GENGIS: Sim, destruam o balcão.
TITI: Mas já destruímos o balcão.
GENGIS: Então destruam outra vez. Partam as janelas antigas.
TIO: Já fizemos isso. Há anos.
GENGIS: Então façam outra vez. Vai tudo abaixo! Deitem as paredes abaixo. Quero um espaço-aberto, um open-space. Quero preservar. Modernizar ou morrer!
TIO: Mas Gengis, não sobrou nada. Já desapareceu tudo há muito tempo.
TITI: O que é que queres dizer com modernizar?
TIO: Feito para ser mais rápido, é isso que queres dizer?
GENGIS: Bom, pois, velocidade ou, ou, ou........ llllllllllucro.
TIO: (rápido) Oh, já percebi o que estás a dizer! Pois, não há nada mais moderno. Lucro.

24 de Dezembro de 2007

REUNIÃO DO DIA 23 DE DEZEMBRO

Mais uma reunião ontem. Desta vez cenografia e figurinos. Fomos lendo a peça e parando sempre que nos surgia ideias de cenário ou encenação, ou ambas, ou whatever. Éramos quatro. O Luís, eu, a Teresa Tavares (que vai representar a Annie, a Penny e a Vicky do Emagrecimento) e a Andreia que fará a produção executiva.
Trabalhámos em cima da ideia inicial de ter tralha em cima do palco. Falámos de padrões e de como queremos que a arquitectura particular do palco ecoe no cenário. Olhámos para a planta, inventámos um palquinho para a Titi, marcámos uma falsa saída de cena, trabalhámos na iluminação, não esquecemos a ideia de ter 15 frigoríficos em cena.
Pensámos no que poderão ser os vários fatos que a Titi veste e que são sugeridos pelo Gregory Motton. Do tipo: mistura de "Bailarina Havaiana e Membro da Ordem Laranja" ou mistura de "Stalin com Mao Tsé-Tung". Quais são os elementos a preservar destes ícones? O que dizem eles?
Aproveitei para fazer mais correcções na tradução. Tornar o texto mais conciso.
Foi uma boa reunião. As ideias estão agora a ecoar nas nossas cabeças. Lá para Fevereiro reunimos outra vez.
Até lá, bom ano a todos.

22 de Dezembro de 2007

A PAIXÃO DA TITI

Desde que ficou sem o cão. Quer dizer. Desde que o Tio decidiu... fazer aquela coisa horrível ao seu adorável companheiro, à sua máquina de cagalhões, desde esse dia que a Titi ficou desgostosa. O trabalho com o Gengis era muito entediante, as ordens eram sempre contraditórias e ela ficava muito confusa. Por isso decidiu dedicar-se à música. A música sempre fora o seu grande amor. É claro que o Tio era o seu amor consumível e consumável, mas a música era o amante, era aquela coisa que não se conseguia definir e que no entanto reunia tantas coisas... belas...
Inscreveu-se numa escola de canto. Aprendeu com os melhores professores e agora carrega sempre atrás dela um gravador de cd's onde estuda as músicas. A vida dela é quase um karaoke. Poucas coisas a afastam do seu mundo de sonho: os brinquedos fofinhos cor de rosa são uma delas. Roupas novas a outra. Principalmente roupas que lembrem ditadores sanguinários porque... o nome do Gengis sempre lhe soou muito bem...
A Titi tem um gosto musical bastante eclético: tanto pode ouvir Kurt Weill (a sua última tara é os Sete Pecados Mortais) como Elis Regina ou música italiana dos anos 70 - Renato Zero - ou mesmo Ella Fitzgerald. Para ela é tudo boa música. E cá para mim até tem razão.
O problema é a inconveniência que isso causa aos vizinhos. Não que a família tenha muitos vizinhos chatos mas porque o Gengis já está farto e o Tio, embora aprecie até certo ponto, basicamente, também já está farto das cantorias. Os dois, porém, são bastante comedidos e sabem que a ofenderiam de morte se mostrassem de alguma maneira o seu desagrado. E a Tia é uma menina muito sensível. Por isso abstêm-se de quaisquer comentários.
A Titi sabe que o Tio tem outras mulheres, mas não se importa. Afinal ela também tem outro amor: a música.

12 de Dezembro de 2007

A ESCAPADELA DO TIO

O tio do Gengis, aborrecido das cantorias da Titi, decidiu divertir-se com a amiga de uma amiga que conhecera da última vez que esteve na República do Daguestão. Esta verdadeira caucasiana conseguia dar-lhe prazer várias vezes na mesma noite. Coisa que nunca acontecia com a titi.
O tio recorria a estas escapadelas só quando estava mesmo desesperado. Mas gostava delas. Às vezes desesperava-se facilmente só para poder ir mais depressa ter com aquela mulher, meio balcânica, meio chique da França.
Como é que ele podia esquecer aquele chapéu coquette por cima de uma lingerie de rendas transparente?
E o modo afectado com que pegava no espelho para ajeitar o colar no colo rosado?
Ah, que volúpia. A titi nunca podia entender isto. Aquela mania de se vestir de maneiras completamente estapafúrdias quando o que interessava era que as pessoas se despissem... isto ela nunca poderia entender...
Mesmo assim, a titi era insuperável a cantar.

26 de Novembro de 2007

GENGIS ENTRE OS PIGMEUS

A peça está escolhida. Será Gengis Entre os Pigmeus. Decidimos fazer a segunda peça da trilogia primeiro. Poderá parecer estranho, mas o que é facto é que as Visões Úteis já nos apresentaram as personagens em 1995. Resta-nos agora prosseguir as suas aventuras. A peça começa no exacto momento onde a primeira termina:

GENGIS CÃO, o merceeiro, de pé em cima de uma cadeira, com uma corda à volta do pescoço.

TITI: Queres as boas notícias ou as más notícias primeiro?
GENGIS: As boas notícias.
TITI: A pena capital foi abolida.
GENGIS: Pfiu! Que alívio. E as más notícias?
TITI: O capital-ismo acabou de ser prorrogado... indefinidamente. Corres o risco de ficar aí para sempre. Mas podemos substituir-te a cadeira, de vez em quando, por um modelo mais moderno que exprima melhor a tua personalidade.
GENGIS: Bom, estou maravilhado. Posso fazer um discurso?
TITI: Claro. A liberdade de expressão não é só uma necessidade, é um dever.
GENGIS: Posso dizer o que quiser?
TITI: Claro. Como o Henry Ford disse: podes ter a opinião que quiseres desde que seja uma que já haja no nosso armazém.
GENGIS: Está bem.
TITI: A outra boa notícia é que acabaste de ganhar a competição para líder desta grandiosa nação.
GENGIS: Aha!
TITI: Pois é, ficaste encarregue de encher as prateleiras e promover os excessos das agendas políticas. Esperamos grandes coisas de ti.
GENGIS: 'Tou a ver. O mundo é uma ostra! Iupií! Posso começar já?
TITI: Começa quando quiseres – não faz a mais pequena diferença.
GENGIS: (desce) Então pronto, meus miseráveis. Portanto. Vamos lá ver se desta vez fazemos alguma coisa de jeito.
TITI: Sim, Gengis.
GENGIS: Primeiro –, onde está o Tio?
TITI: Anda lá fora a angariar assinaturas para um novo mandato. Em teu nome.
GENGIS: Antes que ele chegue, Titi, queria confessar-lhe uma coisa.
TITI: Claro, querido.
GENGIS: Percebi agora que me enganei completamente da última vez.
TITI: Oh não...
GENGIS: Ah sim! Fui muito duro...
TITI: Talvez...
GENGIS: ... e ao mesmo tempo muito mole.
TITI: O que farás desta vez?
GENGIS: O oposto.
TITI: Oh.


A fotografia é de um trabalho de Robert Rauschenberg.

23 de Outubro de 2007

FICHA TÉCNICA DO ESPECTÁCULO COM TEXTO DE GREGORY MOTTON AINDA SEM NOME

Este post desmente o post de baixo. Mas temos de nos conformar com isso, vai ser uma constante ao longo do processo de trabalho. O trabalho de pesquisa às vezes pode ser muito caótico.
Ainda estamos no processo de digerir o pequeno revés de não fazermos duas peças, mas apenas uma. Primeiro pensámos que seria óbvio começar pelo início e ler a segunda peça. Mas a ideia de fazer a segunda peça da trilogia e ler a primeira começa a ganhar mais sentido. Um dos motivos a favor é o facto de ser inédita em Portugal e de propormos assim mais um passo e não apenas o mesmo passo.
Bom, seja como for, será apenas uma peça, e o elenco já está, em grande parte decidido: Dinarte Branco (Gengis), João Didelet (Tio), Inês Nogueira (Titi), Luís Mouro (Cenários e Figurinos), Pedro Polónio (que tirou as fotografias do post anterior) e Pedro Marques (Encenação e tradução e talvez represente). A peça (sem nome ainda) estreará em Julho de 2008 na Culturgest e faz parte de um trabalho que a Associação Fora de Cena levará a cabo sobre a obra do dramaturgo britânico.

MANIFESTO DADA DE TRISTAN TZARA - 23 DE MARÇO, 1918

A palavra mágica – DADA – que para os jornalistas abriu a porta de um mundo nunca visto, para nós não tem a mais pequena importância.

Para lançares um manifesto tens de ter: A B & C e de os detonar contra 1, 2 & 3.

Melhora-te e alisa as penas das asas de modo a conquistares e circulares os As, Bs e Cs de caixa alta ou caixa baixa, assinala, grita, injuria, organiza a prosa numa forma que seja absoluta e irrefutavelmente óbvia, prova o seu nec plus ultra e afirma que as inovações se parecem com a vida do mesmo modo que as últimas aparições de uma meretriz provam a essência de Deus. A sua existência já tinha sido provada pelo acordeão, a paisagem e as palavras suaves. Impor o próprio A, B, e C é normal – e por isso lamentável. Toda a gente o faz, em forma de madona de falso cristal, ou através de um sistema monetário, ou de preparados farmacêuticos, sendo uma perna nua um convite a uma Fonte ardente e estéril. O amor à inovação é uma espécie de cruz agradável, a sua evidência de uma atitude naíve do não-quero-saber, uma passagem, positiva, um sinal sem qualquer nexo. Mas esta necessidade também não é do seu tempo. Ao dar à arte o ímpeto supremo da simplicidade – a inovação – estamos a ser humanos e verdadeiros na nossa relação com os prazeres mais inocentes; com a impulsividade e a vibração que crucificam o tédio. Nestes iluminados e atentos cruzamentos, em alerta, que esperaram durante anos, na floresta. Estou a escrever um manifesto e não quero nada, e contudo digo certas coisas, e por princípio sou contra manifestos, tal como sou contra princípios (que quantificam a medida dos valores morais de cada frase – isso é demasiado fácil; a aproximação era papel dos impressionistas).

Escrevo este manifesto para demonstrar que se podem realizar acções opostas ao mesmo tempo, num único, e fresco movimento. Sou contra a acção; e em relação à contradição conceptual, e à sua afirmação também, não sou contra nem a favor, e não me vou explicar, detesto o senso comum.

DADA – é uma palavra que atira as ideias ao ar de modo a que possam ser abatidas; todos os burgueses são dramaturgos que inventam diferentes assuntos e que, em vez de situar determinadas personagens ao nível da sua inteligência, como crisálidas em cadeiras, tentam encontrar causas e temas (de acordo com o seu qualquer método psicoanalítico que praticam) para dar peso ao seu argumento – uma história que se define e se conta a si própria.

Todos os espectadores são argumentistas, se algum deles tentar explicar qualquer palavra (a saber!) do seu fortificado refúgio de complicações tortuosas, permite que os instintos sejam manipulados. Daí as angústias da vida conjugal.

Para sermos directos: o divertimento de barrigas vermelhas nas azenhas de crânios vazios.

DADA NÃO QUER DIZER NADA

Sobre o Projecto

A minha fotografia
contacto: pmsmarques@netcabo.pt

A CONTAR...